Entre esses apelidados figurava Zé Levy, orador popular de Fortaleza, todo destrambelhado, corcunda, cheio de anfractuosidades no corpo e angulosidades na cara, uma figura tão torta quanto barulhenta. Veio ao Aracati a convite do coronel Alexanzito Costa Lima, que o trouxe para animar seus comícios, já que o próprio coronel, coitado, não nascera com o dom da falação.
Era tempo de comício de final de campanha, quando os ânimos se acirravam e os oradores se desdobravam para engrandecer seus candidatos em discursos envolventes, capazes de empolgar e levar a patuleia ao delírio.
Entre esses famosos oradores estava justamente Zé Levy, trazido de Fortaleza como a principal atração para o encerramento da campanha, segredo guardado até o último instante para ser a surpresa da noite, o coroamento de uma disputa vitoriosa.
Uma multidão postada em frente ao palacete do coronel Alexanzito Costa Lima, na antiga rua Conselheiro Liberato Barroso[1], o aplaudia sempre que ele surgia na sacada do sobrado, impecável no terno de linho branco modelo drapeado, sob gritos de viva, viva, viva.
A atração da noite foi então apoteoticamente introduzida ao centro do palanque ao som da Charanga 24 de Maio, que executava um dobrado retumbante, todo floreado por clarins.
Zé Levy, trepado num tamborete para se fazer mais visto, cumprimentou a multidão:
— Povo do Aracati, meus cumprimentos...
Castorina Pinto, que assistia ao comício da varanda do seu sobrado, quase vizinho ao do coronel, ao ouvir o anúncio do orador da noite, espichou o pescoço mordida de curiosidade, curiosidade que terminou num desalento:
— A atração é esse Caneco Amassado?!
[1] Atual rua Cel. Alexanzito (Rua Grande).
