Aracati

Friday, 08 May 2026 09:18

CASTORINA PINTO | PREGUIÇA REAL

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Preguiça Real Preguiça Real Colagem Digital: Marciano Ponciano

Não sabemos ao certo por que Castorina Pinto nutria tamanha predileção por apelidar os magistrados que por aqui passaram. O fato é que esta história se soma a tantas outras em que os juízes da Comarca de Aracati figuram como personagens — e, não raro, como vítimas — da prodigiosa habilidade de Castorina em alcunhar todos aqueles que circulavam pelos seus domínios.

Alguns magistrados que vieram exercer a profissão em Aracati, durante os anos 1940, de modo geral não traziam a família para a Terra dos Bons Ventos. A impressão que se tem é que não desejavam permanecer muito tempo entre os aracatienses; talvez também pela precariedade da cidade, que não oferecia os serviços básicos desejados. Assim, preferiam hospedar-se no único hotel existente, propriedade do Sr. Teófilo Pinto, onde Castorina trabalhava como gerente da hospedaria.

Castorina era uma gerente severa e disciplinada. Mantinha horários rígidos para que o bom andamento do hotel atendesse com presteza os hóspedes — exigência que se estendia tanto aos serviçais quanto aos próprios hospedados.

Um dos problemas da hospedaria residia justamente na questão dos horários, sobretudo no que dizia respeito ao café da manhã, que tinha momento certo para começar e, naturalmente, para terminar.

O juiz que ocupa o foco de nossa história viera substituir um antigo magistrado que labutara por muitos anos em Aracati e que, como prêmio pelo excelente trabalho no campo da magistratura, fora transferido para uma instância superior em Fortaleza. O recém-chegado, porém, era de outra natureza: um homem alto, de gestos moderados, cheio de corpo, arrastando os pés, olhar sonolento, passos cadenciados e voz bem pausada.

Praticamente não saía do hotel para canto nenhum. Ir aos cartórios era uma raridade. Preferia deixar-se ficar no quarto até altas horas da noite, mesmo com a precária luz fornecida pela Usina Elétrica de Aracati de então. Por esse motivo, imaginava Castorina que ele se atrasasse todos os dias para tomar o café da manhã, causando um transtorno na cozinha, que tinha de esperar por aquele retardatário.

Certo dia, já aborrecida com aquele “passo lento”, Castorina chamou Pereba, a garota de recados da casa, e soletrou com a precisão de quem não admite réplica:

— Pe-re-ba, vá no quarto do PREGUIÇA REAL e diga que anoiteceu!!!

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Antero Pereira Filho

ANTERO PEREIRA FILHO, nasceu em Aracati-CE em 30 de novembro de 1946. Terceiro filho do casal Antero Pereira da Silva e Maria Bezerra da Silva, Antero cresceu na Terra dos Bons Ventos, onde foi alfabetizado pela professora Dona Preta, uma querida amiga da família. Estudou no Grupo Escolar Barão de Aracati até 1957 e, a partir de 1958, no Colégio Marista de Aracati, onde concluiu o Curso Ginasial.
Em 1974, Antero casou-se com Maria do Carmo Praça Pereira e juntos tiveram três filhos: Janaina Praça Pereira, Armando Pinto Praça Neto e Juliana Praça Pereira. Graduou-se em Ciências Econômicas pela URRN-RN em 1976 e desde então tem se destacado em sua carreira profissional.
Antero atuou como presidente do Instituto do Museu Jaguaribano em duas gestões (1976-1979/1982-1985) e foi secretário na gestão do prefeito Abelardo Gurgel Costa Lima Filho (1992-1996), responsável pela Secretaria de Indústria, Comércio, Turismo e Cultura.
Além de sua carreira profissional, Antero é conhecido por seus estudos sobre a história e a memória da cidade e do povo aracatiense, amplamente divulgados em crônicas e artigos publicados na imprensa local desde 1975. Em 2005, sua crônica "O Amor do Palhaço" foi adaptada para o cinema em um curta-metragem (15") com direção de seu filho, Armando Praça Neto.

Obra

Assim me Contaram. (1ª Edição 1996 e 2ª Edição 2015)
Histórias de Assombração do Aracati. Publicação do autor. (1ª Edição 2006 e 2ª Edição 2016)
Ponte Presidente Juscelino Kubitschek. (2009)
A Maçonaria em Aracati (1920-1949). (2010)
Aracati era assim... (2024)
Relíquias de uma campanha (2024)
Aracaty: 1862, cólera-morbo (2025)
Fatos e Acontecimentos Marcantes da História do Aracati. (Inédito)
Notícias do Povo Aracatiense (Inédito)

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O Grupo Lua Cheia, com sede na cidade de Aracati-CE, é um coletivo de artistas formado em 1990 com o objetivo de fomentar, divulgar e pesquisar a arte e a cultura.