Alguns magistrados que vieram exercer a profissão em Aracati, durante os anos 1940, de modo geral não traziam a família para a Terra dos Bons Ventos. A impressão que se tem é que não desejavam permanecer muito tempo entre os aracatienses; talvez também pela precariedade da cidade, que não oferecia os serviços básicos desejados. Assim, preferiam hospedar-se no único hotel existente, propriedade do Sr. Teófilo Pinto, onde Castorina trabalhava como gerente da hospedaria.
Castorina era uma gerente severa e disciplinada. Mantinha horários rígidos para que o bom andamento do hotel atendesse com presteza os hóspedes — exigência que se estendia tanto aos serviçais quanto aos próprios hospedados.
Um dos problemas da hospedaria residia justamente na questão dos horários, sobretudo no que dizia respeito ao café da manhã, que tinha momento certo para começar e, naturalmente, para terminar.
O juiz que ocupa o foco de nossa história viera substituir um antigo magistrado que labutara por muitos anos em Aracati e que, como prêmio pelo excelente trabalho no campo da magistratura, fora transferido para uma instância superior em Fortaleza. O recém-chegado, porém, era de outra natureza: um homem alto, de gestos moderados, cheio de corpo, arrastando os pés, olhar sonolento, passos cadenciados e voz bem pausada.
Praticamente não saía do hotel para canto nenhum. Ir aos cartórios era uma raridade. Preferia deixar-se ficar no quarto até altas horas da noite, mesmo com a precária luz fornecida pela Usina Elétrica de Aracati de então. Por esse motivo, imaginava Castorina que ele se atrasasse todos os dias para tomar o café da manhã, causando um transtorno na cozinha, que tinha de esperar por aquele retardatário.
Certo dia, já aborrecida com aquele “passo lento”, Castorina chamou Pereba, a garota de recados da casa, e soletrou com a precisão de quem não admite réplica:
— Pe-re-ba, vá no quarto do PREGUIÇA REAL e diga que anoiteceu!!!
