Pensei antes de conhecê-lo ser alguém elitizado, pedante ou até mesmo arrogante. Enganei-me. Mal fomos apresentados e contou uma piada ironizando os próprios portugueses. De minha parte, aproveitei o ensejo e gastei meu parco repertório de meia dúzia de anedotas sobre o mesmo tema e pronto, quebraram-se eventuais formalidades. Levei-o a se hospedar em hotéis e pousadas distintas e em dias diferentes, seu objeto de trabalho ou pesquisa. Mesmo achando-o bastante simpático, fiquei apreensivo pois guardava a nítida impressão de que acharia tudo precário e acanhado, já que era acostumado a se instalar nos melhores hotéis do mundo. Ao final, comentou sinceramente sobre o conceito de alguns desses hotéis e passamos a conhecer os principais restaurantes da região.
Em nossas reuniões, enquanto esperávamos o almoço, esclarecia muito sobre a culinária portuguesa. Tentou me ensinar como cozinhar um delicioso camarão, refutei ao mencionar ser alérgico e nunca saberia o gosto. Ouvi sem opinar sobre a melhor técnica para preparar um prato que nunca nem provei. Passou a elencar os principais estabelecimentos de Lisboa - como se eu fosse para lá na semana seguinte - além de indicar os melhores hotéis em praticamente todas as cidades do Brasil, englobando qualidade e preço acessível. Concentrei-me mais, entretanto, sobre as lições relativas aos vinhos. Busquei, outrossim, ouvir atentamente aquelas verdadeiras aulas, tudo findava por ser bem proveitoso, aprender é uma dádiva.
Em toda a narrativa, o que me mais empolgava era a intensidade com que conduzira sua vida. Aos dezoito, servira ao exército lusitano e lutara na guerra da independência de Angola. Na sequência, fora trabalhar na França por alguns anos, ainda bem jovem. Durante uma curta temporada de férias no Brasil, por dominar o idioma de Voltaire e Victor Hugo, fora convidado a laborar em hotéis de cidades diferentes: São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Manaus, entre idas e vindas. Veio parar por acaso em Fortaleza, após ter sido demitido, sair sem nenhum tostão furado do último emprego e não ter dinheiro para comprar a passagem de volta. Ficou, então, de vez no Ceará, inicialmente assumindo um trabalho ocasional, até se firmar.
Tão vasto currículo o cacifou ao longo das décadas como exímio em sua área, fruto de uma trajetória profissional relevante. Contudo, me impactou o apreço que destinava aos seus pequenos prazeres do cotidiano, valorizando-os ao extremo. Tratava-os quase como um ritual. Almoçava preferencialmente um peixe acompanhado de um bom vinho. Uma garrafa, a propósito, durava cerca de três refeições. Em seguida, acendia um cachimbo, momento este em que se isolava num canto para fazer a digestão e não incomodar ninguém. Ao retornar à mesa, solicitava uma xícara de café adicionando uma pequena dose de cachaça. Isso mesmo, a boa e velha bebida essencialmente brasileira. No jantar, bastava apenas um sanduíche, nada mais. Dizia que como bom português era louco por pães. Para acompanhar, pedia uma única garrafa de cerveja. Se alguém oferecesse uma segunda, gentilmente recusava. Era sua receita para permanecer sóbrio.
Não era muito afeito a práticas esportivas, a não ser a imprescindível caminhada na praia. Dissertava extasiado e com os olhos marejados que adorava navegar em alto mar junto com humildes pescadores, amigos de longa data, num pequeno barco mantido na costa cearense. Concluída a pescaria, dividia o apurado incluindo generosamente na quota aqueles em terra firme impedidos de participar por motivos de saúde, idade ou doença. Depois, alegremente, preparava com apuro o peixe fresco, recém pescado, para servir à esposa e aos demais convidados em sua casa de praia. Felizardos que iam sorver da sua esmerada culinária.
A maior de todas as paixões é o deslumbramento que mantém desde criança em relação ao mar, talvez inspirado pelos versos “navegar é preciso, viver não é preciso”[1], a ponto de repetir incessantemente que podia viajar o mundo todo, mas se recusava a ficar muito tempo distante do mar. Não conseguia dormir bem sem sentir o frescor da brisa marinha. Precisava navegar sempre e assim, ao sabor do sobe-e-desce incansável das marés, enfrentando os nevoeiros que surgirem, conduzia despretensiosamente sua vida.
[1] Navegar é preciso, viver não é preciso e ou mar português. Fernando Pessoa.