Pois não deixa de ser espantoso que o boêmio Fundo de Couro jamais tenha dado a menor importância a esse extravagante cognome que o acompanhava desde a adolescência, como se fosse coisa naturalíssima de se carregar pela vida afora.
Achando pouco aquele excêntrico cognome que carregava com a maior naturalidade, João Fundo de Couro resolveu aceitar o desafio dos companheiros de vida boêmia e estroinice. E lá veio ele ao Aracati, de propósito, só para se apresentar diante de Castorina Pinto e provocar a mestra a lhe arranjar um apelido ainda mais ousado que o anterior.
O encontro dessa peleja deu-se no Bar Amansa Sogra, de propriedade do Chico de Janes — velho camarada e grande amigo da famosa Mulher dos Apelidos —, que, todo orgulhoso, cedeu o espaço do seu estabelecimento para a ocasião.
Quando Castorina chegou ao Amansa Sogra, foi logo recebida pelo próprio Chico de Janes. Ele ainda ensaiava as mesuras da apresentação quando foi abruptamente interrompido pelo protagonista da história, que se adiantou, peito aberto, e tratou de se apresentar sem rodeios:
— Dona Castorina, eis aqui o seu criado João Fundo de Couro!
A mestra, serena como quem já viu de tudo nessa vida, percorreu o sujeito de alto a baixo com um olhar demorado. Depois, abriu um sorriso matreiro e soltou, com a calma de quem dá o golpe final sem levantar a voz:
— Ah! Então o senhor é mesmo um João Prevenido!