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Tuesday, 19 May 2026 10:53

CASTORINA PINTO | COMPASSO

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CASTORINA PINTO | COMPASSO Colagem Digital: Marciano Ponciano

O Aracaty Club serviu de palco e cenário, durante os anos cinquenta, ao deleite de uma sociedade conservadora e de uma elite exclusivista, que ali encontrava o ambiente ideal para cultivar suas distinções. Somente muito tempo depois o clube viria a se popularizar, embalado pelos seus memoráveis carnavais, que abriram as portas para um público mais amplo e festivo.

Enquanto permaneceu restrito aos sócios e convidados, o Aracaty Club oferecia aos seus frequentadores um salão de sinucas e bilhar, além de um bar sortido e elegante que atendia com esmero aos seus assíduos. Era um universo cuidadosamente moldado para agradar aos que prezavam por refinamento e discrição.

O cassino funcionava numa área privada e era território reservado aos figurões da sociedade e à gente de largo cabedal, que ali se reunia para testar a sorte e exibir, com naturalidade estudada, o peso de seus bolsos e sobrenomes.

A Associação Recreativa Aracatiense, a conhecida ARA, surgira com o propósito de congregar moças e rapazes daquela juventude dourada, incentivando a prática esportiva e oferecendo um espaço onde pudessem exercitar seus dotes atléticos e, não menos importante, exibir sua beleza. Era um clube dentro do clube, dedicado à vitalidade e ao brilho daquela mocidade.

O point de toda essa elite juvenil concentrava-se justamente no Aracaty Club, onde, todas as tardes, partidas de vôlei se desenrolavam como um verdadeiro festival de esportividade, sociabilidade e encanto. Ao mesmo tempo, o ambiente se transformava num desfile de elegância, exibicionismo e cortejamento, com pares circulando pelos salões como se participassem de uma coreografia social cuidadosamente ensaiada.

Foi numa dessas tardes amenas que Castorina Pinto, recém-chegada do expediente na prefeitura e enfatiotada com seu vestido rodado, resolveu conduzir uma sobrinha recém-vinda de Fortaleza ao convívio do high society aracatiense.

Ainda se encontrava nas apresentações, distribuindo elogios aos tecidos engomados e comparando penteados que faiscavam como pequenas constelações, quando, de repente, a cena se rompeu com a entrada inesperada de uma figura que parecia ter escapado de outro enredo social. Surgiu do banheiro feminino e avançou para o salão de baile uma moça muito magra, de pernas longas, equilibrada em sapatos altíssimos e comprimida numa calça tão justa que parecia desafiar a costura. Era seguida por um grupo de acompanhantes que fazia uma tremenda algazarra.

Castorina voltou-se para a sobrinha, igualmente pasmada, e murmurou com espanto contido:

— De onde despontou aquele COMPASSO?!

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Antero Pereira Filho

ANTERO PEREIRA FILHO, nasceu em Aracati-CE em 30 de novembro de 1946. Terceiro filho do casal Antero Pereira da Silva e Maria Bezerra da Silva, Antero cresceu na Terra dos Bons Ventos, onde foi alfabetizado pela professora Dona Preta, uma querida amiga da família. Estudou no Grupo Escolar Barão de Aracati até 1957 e, a partir de 1958, no Colégio Marista de Aracati, onde concluiu o Curso Ginasial.
Em 1974, Antero casou-se com Maria do Carmo Praça Pereira e juntos tiveram três filhos: Janaina Praça Pereira, Armando Pinto Praça Neto e Juliana Praça Pereira. Graduou-se em Ciências Econômicas pela URRN-RN em 1976 e desde então tem se destacado em sua carreira profissional.
Antero atuou como presidente do Instituto do Museu Jaguaribano em duas gestões (1976-1979/1982-1985) e foi secretário na gestão do prefeito Abelardo Gurgel Costa Lima Filho (1992-1996), responsável pela Secretaria de Indústria, Comércio, Turismo e Cultura.
Além de sua carreira profissional, Antero é conhecido por seus estudos sobre a história e a memória da cidade e do povo aracatiense, amplamente divulgados em crônicas e artigos publicados na imprensa local desde 1975. Em 2005, sua crônica "O Amor do Palhaço" foi adaptada para o cinema em um curta-metragem (15") com direção de seu filho, Armando Praça Neto.

Obra

Assim me Contaram. (1ª Edição 1996 e 2ª Edição 2015)
Histórias de Assombração do Aracati. Publicação do autor. (1ª Edição 2006 e 2ª Edição 2016)
Ponte Presidente Juscelino Kubitschek. (2009)
A Maçonaria em Aracati (1920-1949). (2010)
Aracati era assim... (2024)
Relíquias de uma campanha (2024)
Aracaty: 1862, cólera-morbo (2025)
Fatos e Acontecimentos Marcantes da História do Aracati. (Inédito)
Notícias do Povo Aracatiense (Inédito)

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