Preparando-se para um jogo do Ferroviário Atlético Clube, no Presidente Vargas, a turma de cinco rapazes se reuniu ao redor do velho Braga, ali no balcão da mercearia mesmo, pois seria muita audácia querer sentar-se à mesa com a grã-finagem do afamado vizinho Bar do Joaquim.
Súbito, o professor, macaco velho das lides amorosas, avistou uma aliança reluzente na mão direita de um dos jovens, Rafael, estudante de Engenharia, que vez ou outra falava o nome de uma moça que dizia ser sua noiva.
— “Não gosto de aliança”, dizia o professor.
De olhos fixos no anel brilhoso que Rafael orgulhosamente exibia à mão direita, Braga enfia o recorte de jornal embaixo do braço, e se põe a dissertar sobre o casamento. No início, a garotada pensava se tratar de uma conversa de bêbado, mas com o discorrer da fala viu-se que havia algum sentido na retórica do velho:
— “Esse negócio de casamento deve ser pensado com muita calma. Nem sempre a namoradinha carinhosa que enfrenta maratonas de séries de netflix ao seu lado o suportaria nos momentos de liseira pesada, contas atrasadas e em nível alto de estresse.
Casei-me três vezes, na primeira aos dezoito anos, num ato de impulso. Arrependido, me joguei numa farra louca, numa dessas me dei mal, e saí de casa humilhado pedindo guarita para a minha mãe que me botou para dormir no depósito nos fundos da velha casa na avenida do Imperador junto com a ração das galinhas. Tudo por culpa de uma aliança.
Restabelecido, me juntei a uma viúva rica, ela acabou falindo e eu sustentando a turma toda enquanto era comparado dia e noite com o finado. Pulei fora e aluguei um flat que cabia só a mim e o meu acervo de discos e livros. Ali, fui muito feliz. Sozinho, um dia no uísque, no outro, Frank Sinatra na vitrola.
Por isso, sempre que vejo jovens como vocês, recém-formados, fazendo juras de amor, banquetes milionários e viagens mundo afora como lua-de-mel, penso se suportariam o day after da festa, os filhos doentes, o saldo negativo da conta bancária, o tédio que banaliza o romance, e as diferenças que abundam e somente são constatadas no cotidiano de um matrimônio. E nem adianta querer trocar de esposa por um determinado defeito que não lhe apraz, pois é certo que a nova companhia terá outros defeitos que eventualmente também vão começar a incomodar.”
Curioso, Rafael perquire ao Braga como terminou o terceiro casamento.
— “Exigia aliança, não uso nem a pau.”
Todos riram.
— “Mas por qual motivo o senhor não suporta aliança?”
— “Casei pela primeira vez, como disse, era muito moço. Na época Fortaleza era uma aldeia, tudo fechava cedo. Os meus colegas de universidade queriam ir para uma festa black tie, e eu era o único casado. Haveria umas menininhas para a gente se animar e eu me empolguei. Na época, meus filhos eram pequenos e estava esgotado do incômodo de uma rotina de problemas. Não pensei duas vezes, guardei a aliança no bolso do paletó e fantasiei que ainda era solteiro como os meus amigos.
Ao final da festa, quase de manhã, quando percebi, não localizei a maldita aliança. Dei dez contos a um menino que revirou o paletó e não a encontrou. Pensei em inventar que teria sido assaltado, mas no auge da embriaguez, preferi bater à porta de uma muambeira, minha vizinha, que também vendia joias e comprei a primeira aliança que me coube na medida certa. Depois eu resolveria esse problema. Certa hora do dia, ainda de ressaca vejo a mulher mexendo no meu paletó, e um barulho fazendo plim plim, era a tal aliança que procurei a noite toda caindo no chão. Enquanto isso, eu mantinha a outra aliança, falsa, na mão.”
— “E aí, o que aconteceu?”
— “Até hoje não consegui explicar para ela o que eu fazia com duas alianças”.
A turma se despediu aos risos, mas Rafael permanecia sisudo. Olhava para a aliança, mexia e remexia. Soube-se que meses depois o jovem estudante rompeu o noivado.
O velho Braga, por sua vez, hoje vive muito bem. Casado pela quarta vez, tem a liberdade de, aos domingos, beber sua cachacinha na Mercearia do Orelha e mantém um pequeno quarto para o seu acervo particular.
Só que ainda resiste a usar alianças.