Aracati

Thursday, 25 June 2026 21:49

TIPOS POPULARES | MESTRE JOÃO (JOÃO MALAÇADA)

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Trecho da Rua Grande | Aracati-CE Trecho da Rua Grande | Aracati-CE Foto: Abílio Monteiro

Tipo de negro velho, vesgo, usando “cavagnac”, trazendo permanentemente a cabeça cheia de “caminhos de rato”, João Malaçada, ou Mestre João, como nós o chamávamos, era um indivíduo de grande utilidade para a população aracatiense de seu tempo.

Qualquer coisa parecida com uma tradição influía no sentido de que em Aracati muitos homens fossem conhecidos ou chamados de “Mestres”.

Lembro-me de Mestre Raimundo Cosme, Mestre João Gomes, Mestre Manoel Paulo, Mestre Miguel, Mestre Luiz, Mestre Zé Serafim, Mestre João (João Malaçada), Mestre Albino, Mestre Carlos etc.

Os três primeiros eram na realidade mestres de música. Mestre Miguel e Mestre Luiz eram pedreiros; Zé Serafim era Mestre de padaria; Mestre Carlos era um marítimo, residente na Gamboa, rapaz moço, e não era artista; João Malaçada tinha uma profissão malcheirosa e pouco edificante e apesar disso era Mestre; quanto a Mestre Albino, era Mestre em babar e dormir em pé, pelos caminhos. Sofria do mal do sono. Dele ocupar-me-ei em outra palestra.

Por isso ou por aquilo, o certo é que João Malaçada também era Mestre. Pelo menos assim o chamávamos.

Levando em conta a época e os costumes de então, Mestre João desempenhou com o seu trabalho uma importante função social.

Sem ele, e o seu êmulo Lopicínio, a higiene da cidade não teria sido possível, como a limpeza das ruas não o seria, igualmente, sem Aniceto, de quem falarei adiante.

As fossas higiênicas ainda não tinham a vulgarização dos nossos dias, de sorte que a população da cidade era obrigada a recorrer às fossas portáteis, os velhos e conhecidos “barris”, com tampa móvel de madeira.

Quando essas fossas estavam cheias, deveriam ser retiradas dos quintais, para serem despejadas no Rio Pequeno, aonde iam alimentar peixes e crescidos camarões, que o Gustavo, (Gustavo Pereira do Nascimento), pescador àquele tempo, apanhava para vender à população, fazendo com isso rendoso negócio, porque, segundo se afirmava, os camarões eram mais gostosos do que os do Rio Grande.

Mas voltemos ao assunto. Era Mestre João, com o seu “cavagnac”, com os seus “caminhos de rato”, vesgo, de roupa sebenta e imunda, quem prestava um enorme serviço à população da cidade, transportando dos quintais para o Rio Pequeno, e vice-versa, as fossas portáteis, os úteis barris de madeira.

Esses barris quando ficavam velhos, ou quando demasiadamente cheios, ocasionavam “banhos” em Mestre João, mas este, embora praguejando, desempenhava as suas funções, recebendo o clássico cruzado, por cada despejo.

Mestre João vivia só e enterrava dinheiro, pois ganhava suficientemente, visto que só tinha um competidor, que era Lopicínio.

A profissão, porque era indesejável, tornava-se rendosa, sendo, como era, quase um privilégio daquele negro velho, que, afinal, lá mesmo em Aracati, passou desta para a melhor.

 

Fonte:

BARBOSA, Josias Correia. Tipos Populares. Vol. 1. Fortaleza: Ramos e Pouchain, 1943. p. 11-13.

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