MARCIANO PONCIANO — Quando nasce um poeta?
ARNALDO LIMA — A poesia chegou na minha vida ouvindo minha mãe ler os folhetos de cordel que o meu Pai Véi (avô paterno) comprava na feira. Achei-me poeta quando li o livro Sentimento do Mundo, de Carlos Drummond de Andrade. Mas nasci, de fato, no movimento poético Poetossíntese[1].
MP — O que cabe na poesia de Arnaldo Lima?
AL — Sentimentos vários, fantasias, desabafos e devaneios...!
MP — Qual espanto suscitam as poesias perdidas na gaveta quando são lidas?
AL — Emoção. Reencontro comigo mesmo. Sonho realizado. Aos leitores, creio que causarão conforto, curiosidade, indagações.
MP — Entre os poemas selecionados para compor a obra Poesias perdidas na gaveta, encontram-se textos escritos nos anos 1990, alguns publicados no jornal Poetossíntese. Qual a sua relação com esse movimento?
AL — O Poetossíntese foi um movimento poético que abriu portas para muitos poetas aracatienses. Tive a honra de ser colaborador, o que me fez acreditar que os meus escritos eram poesia.
MP — Mas, afinal, por onde andou a poesia que nasceu da pena do poeta Arnaldo Lima?
AL — Ela escondeu-se com medo de não ser aceita. Amadureceu, tomou forma, reflexão e, acima de tudo, coragem para reaparecer com o desejo de ser vista e analisada.
MP — Nos trabalhos que compõem a obra Poesias perdidas na gaveta habitam olhares e percepções sob duas paisagens simbólicas: o mundo físico e o metafísico do poeta. Nessas geografias, por vezes distintas e por vezes complementares, quais caminhos ou descaminhos são apresentados ao leitor?
AL — Minha pretensão é deixar o leitor criar seu próprio entendimento dentro das figuras, enigmas e segundas intenções de cada verso.
MP — Você é membro da Academia de Letras do Litoral Leste Cearense (ALLILC). Como essa instituição tem atuado para a promoção da literatura?
AL — A ALLILC tem sido uma vitrine para os escritores da região. Atua maravilhosamente na valorização do artista, do anônimo. Seu maior propósito é fortalecer os movimentos literários, buscando união entre as classes artísticas e literárias.
MP — Além de poeta, você é ator, cineasta e roteirista. Quais as vantagens e desvantagens de trabalhar em tantas frentes?
AL — Pois é... fiz uma coisa de cada vez e por pouco tempo. Sou temporário ou panfletário. Sinto-me uma árvore que dá frutos na estação e no tempo certo. Trabalhei anos atuando, criando e dirigindo teatro. Guardei na gaveta. Iniciei uma temporada em roteiros, criação, direção e atuação de vídeos (curta-metragem). Guardei-me. Hoje abri uma gaveta: a da poesia, que fechara na época do teatro. E o amanhã... está por vir. Quando iniciei no teatro, já trazia o cinema dentro de mim. Desde criança frequentava o Cine Moderno assiduamente. Tinha até meu lugar certo no saguão, onde expunha minhas revistas (gibis) para troca, empréstimo e venda. E me escondi sempre numa frase de Glauber Rocha: “Sou um artista. Não me exija coerência”. Mas, hoje, percebo que fiz uma interpretação errônea dessa frase célebre.
MP — Qual a dimensão do inexplicável na vida do poeta Arnaldo Lima?
AL — A distância de um grito num lugar ermo. A resposta não chega perfeita. Só ressoa.
SERVIÇO
POESIAS PERDIDAS NA GAVETA
(Arnaldo Lima)
Paschoal Editora.
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Entrevista concedida por Arnaldo Lima a Marciano Ponciano em 04 de maio de 2026.
[1] Movimento Poético Alternativo aracatiense surgido em 1990 que se notabilizou com a publicação do Jornal Poetossíntese.
