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Sunday, 10 May 2026 09:24

CASTORINA PINTO | CARA DE GARRAFA

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Grande Raid Nova York–Buenos Aires.  Hidroavião biplano Savoia‑Marchetti S.59.  Aracati. 1926. Acervo: Antero Pereira Filho Grande Raid Nova York–Buenos Aires. Hidroavião biplano Savoia‑Marchetti S.59. Aracati. 1926. Acervo: Antero Pereira Filho Colagem Digital: Marciano Ponciano

A população aracatiense, ansiosa, aguardava desde que a imprensa do Ceará, por intermédio do jornal O Nordeste, anunciara a passagem pelo Aracati dos pilotos argentinos Eduardo A. Olivero e Bernardo Duggan. Eles vinham pilotando o Buenos Aires, um hidroavião biplano Savoia‑Marchetti S.59 de 450 hp. Era a aeronave com a qual empreendiam o Grande Raid Nova York–Buenos Aires.

O tão esperado acontecimento, que logo se transformou numa imensa manifestação popular, ocorreu no dia 10 de julho de 1926, um sábado, precisamente às 15h55. Depois dos procedimentos de abastecimento — mais de 500 litros de gasolina —, os aviadores se prepararam para receber as boas‑vindas das autoridades e da população que os aguardava à margem direita do rio Jaguaribe, no Porto José Alves. Eduardo S. Olivero era o mais popular dos pilotos civis argentinos, tendo larga atuação na guerra europeia, onde alcançou o posto de capitão do Exército Italiano. Já Bernardo E. Duggan figurava entre os mais distintos corredores argentinos, detentor do recorde das lutas automobilísticas da América do Sul.

Segundo registrou o jornal A Região[1], os heroicos pilotos que nos visitam receberam, no instante em que pisaram a terra aracatiense e ao som do Hino Argentino, os cumprimentos da comissão organizada para esse fim, composta pelos senhores Dr. Heribaldo Costa, Plínio Ozório, Ezequiel Silva Menezes, entre outras autoridades, todos acompanhados por uma multidão de entusiastas e curiosos vindos de toda a redondeza.

O periódico prossegue contando que uma comissão de distintas senhoritas fora formada para ofertar aos ilustres viajantes lindos ramalhetes de flores naturais. Depois disso, organizou‑se um animado corso de automóveis, levando Duggan e Olivero pela principal artéria da cidade, para que o povo pudesse vê‑los de perto. E, como não poderia faltar num acontecimento dessa grandeza, a noite reservou um gesto de fina hospitalidade: no palacete do Coronel Alexandre Matos Costa Lima, realizou‑se uma recepção em homenagem aos denodados aviadores, que ali foram celebrados como verdadeiros heróis do ar.

O folclore da cidade conta que, entre as senhorinhas presentes à recepção no palacete do Cel. Alexanzito Costa Lima, achava‑se também nossa estimada Castorina Pinto. E, fiel ao seu magnífico senso de observação, não deixou de reparar na aparência do piloto argentino Eduardo Olivero, que, em razão de um sério desastre de aviação, perdera o nariz e as orelhas. Na manhã seguinte, 11 de julho, logo cedo, os pilotos seguiram para o Porto José Alves, onde já os aguardava uma incomputável multidão, além de um seleto grupo de senhorinhas da mais fina sociedade aracatiense, todas desejosas de levar suas despedidas aos arrojados aviadores.

O Savóia S‑59 mal havia sobrevoado a Barreira Preta quando começaram a pipocar as bisbilhotices. Na roda da Calçada das Sebinhos, comentava‑se que Castorina — que nunca tivera sorte com os homens, como ela mesma fazia questão de afirmar — alimentara certa esperança de que a chegada dos aviadores argentinos lhe trouxesse, enfim, uma chance de despachar a solteirice. Mas não foi o que aconteceu. Em conversa com uma amiga, teria confessado:

— Biá, o mais velho era simpático, mas com aquela Cara de Garrafa dele… nem com avião.

Ela, claro, se referia ao Cel. Eduardo Olivero.

 


[1] Jornal semanário publicado em Aracati  de propriedade de Ezequiel da Silva Menezes.

 

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Antero Pereira Filho

ANTERO PEREIRA FILHO, nasceu em Aracati-CE em 30 de novembro de 1946. Terceiro filho do casal Antero Pereira da Silva e Maria Bezerra da Silva, Antero cresceu na Terra dos Bons Ventos, onde foi alfabetizado pela professora Dona Preta, uma querida amiga da família. Estudou no Grupo Escolar Barão de Aracati até 1957 e, a partir de 1958, no Colégio Marista de Aracati, onde concluiu o Curso Ginasial.
Em 1974, Antero casou-se com Maria do Carmo Praça Pereira e juntos tiveram três filhos: Janaina Praça Pereira, Armando Pinto Praça Neto e Juliana Praça Pereira. Graduou-se em Ciências Econômicas pela URRN-RN em 1976 e desde então tem se destacado em sua carreira profissional.
Antero atuou como presidente do Instituto do Museu Jaguaribano em duas gestões (1976-1979/1982-1985) e foi secretário na gestão do prefeito Abelardo Gurgel Costa Lima Filho (1992-1996), responsável pela Secretaria de Indústria, Comércio, Turismo e Cultura.
Além de sua carreira profissional, Antero é conhecido por seus estudos sobre a história e a memória da cidade e do povo aracatiense, amplamente divulgados em crônicas e artigos publicados na imprensa local desde 1975. Em 2005, sua crônica "O Amor do Palhaço" foi adaptada para o cinema em um curta-metragem (15") com direção de seu filho, Armando Praça Neto.

Obra

Assim me Contaram. (1ª Edição 1996 e 2ª Edição 2015)
Histórias de Assombração do Aracati. Publicação do autor. (1ª Edição 2006 e 2ª Edição 2016)
Ponte Presidente Juscelino Kubitschek. (2009)
A Maçonaria em Aracati (1920-1949). (2010)
Aracati era assim... (2024)
Relíquias de uma campanha (2024)
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