Aracati

Monday, 29 June 2026 21:55

O FOGÃO

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O FOGÃO Colagem Digital: Marciano Ponciano

Nair namorava um fogão 4 bocas Esmaltec perolado, visto numa promoção na Eletro‑Guerra. Tentou fazer um crediário, mas foi barrada logo na porta: não tinha carteira assinada, nem comprovante de rendimentos — afinal, seu trabalho de lavadeira e passadeira ainda não tinha sido reconhecido pelo Governo como profissão, embora reconhecido por todas as famílias que dependiam dela. Foi nesse aperto que surgiu, como quem não quer nada, a figura de Chico da Goma em sua vida.

Naquele dia, enquanto trabalhava na casa de um vereador, ouviu uma conversa atravessada vinda da sala de jantar. A mulher do vereador, com voz de quem nunca precisou lavar uma peça de roupa na vida, reclamava da atuação do tal Chico da Goma junto aos aposentados e pensionistas.

— É um absurdo o que ele faz com as pessoas.

— Eu num acho não — respondeu o vereador. — Ele tá é ajudando quem não pode comprar.

A frase ficou martelando na cabeça de Nair. Ao chegar em casa, foi direto procurar um amigo cambista do jogo do bicho, para saber quem era esse Chico da Goma que comprava no nome dele as coisas para o povo. O amigo, conhecedor das rotas paralelas do comércio, deu o endereço.

Munida da informação, Nair seguiu para a casa de Chico, decidida a saber se ele podia comprar para ela o tão sonhado fogão 4 bocas. Chico, com a calma de quem já viu muita gente cair em tentação doméstica, disse que sim. Ele só precisava saber em que casas ela trabalhava, para ter uma garantia de que o pagamento viria. Nair repassou os nomes dos patrões, e Chico aprovou o crédito na hora.

Para receber o fogão, Nair precisava apenas assinar uma promissória: uma declaração de dívida passada em cartório, em benefício do próprio Chico. Dois dias depois, o Esmaltec perolado estaria brilhando na cozinha dela.

E assim foi. No mesmo dia em que assinou — sem ler — a declaração de dívida, no valor do dobro da fatura do fogão, o agente do desejo de Nair chegou em sua casa. Adeus trempe, adeus fogão a lenha na latada, quase no quintal. O desconforto foi embora, mas a intranquilidade entrou pela porta da frente.

Antes do fogão 4 bocas, Nair lavava e passava em 15 casas. Depois da chegada do Esmaltec, teve que procurar mais trabalho, chegando a 25 domicílios. Não tinha tempo para mais nada. O motivo desse aumento absurdo era simples: a despesa que o fogão trouxe. Antes, bastavam uns cavacos de lenha; agora, com o fogão moderno, tinha que comprar gás butano — e o preço subia todo mês.

Na euforia da novidade, mandou derrubar o fogão a lenha e vendeu a velha trempe para um ferro‑velho. Agora estava condenada ao gás butano. No começo, cozinhava todo dia, numa alegria só. Mas logo percebeu que não dava para abrir o fogão diariamente. Passou a cozinhar duas vezes por semana. Depois, nem isso. Com o preço do gás por causa do Irã — foi o que disseram — só aos domingos Nair podia acender o fogão 4 bocas.

Diante dessa dificuldade, teve que dividir o fogão com mais duas famílias, que passaram a usar as bocas em horários alternados, combinando café, almoço e jantar. A casa de Nair, antes refúgio de tranquilidade, virou cozinha comunitária. E pior: ninguém tinha coragem de limpar o fogão depois de usar. A tarefa sobrava para Nair, que chegava exausta de um dia inteiro lavando e passando.

Ela até pensou em se desfazer do “desejado” fogão 4 bocas. Mas sempre que tentava vender, esbarrava na mesma pergunta do comprador:

— Tá quitado? Cadê o carnê?

Era nessa hora que Nair lembrava do documento que assinou, aquele que Chico da Goma guardava com carinho, e respondia:

— Quem sabe é Chico da Goma!!!

 

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Antero Pereira Filho

ANTERO PEREIRA FILHO, nasceu em Aracati-CE em 30 de novembro de 1946. Terceiro filho do casal Antero Pereira da Silva e Maria Bezerra da Silva, Antero cresceu na Terra dos Bons Ventos, onde foi alfabetizado pela professora Dona Preta, uma querida amiga da família. Estudou no Grupo Escolar Barão de Aracati até 1957 e, a partir de 1958, no Colégio Marista de Aracati, onde concluiu o Curso Ginasial.
Em 1974, Antero casou-se com Maria do Carmo Praça Pereira e juntos tiveram três filhos: Janaina Praça Pereira, Armando Pinto Praça Neto e Juliana Praça Pereira. Graduou-se em Ciências Econômicas pela URRN-RN em 1976 e desde então tem se destacado em sua carreira profissional.
Antero atuou como presidente do Instituto do Museu Jaguaribano em duas gestões (1976-1979/1982-1985) e foi secretário na gestão do prefeito Abelardo Gurgel Costa Lima Filho (1992-1996), responsável pela Secretaria de Indústria, Comércio, Turismo e Cultura.
Além de sua carreira profissional, Antero é conhecido por seus estudos sobre a história e a memória da cidade e do povo aracatiense, amplamente divulgados em crônicas e artigos publicados na imprensa local desde 1975. Em 2005, sua crônica "O Amor do Palhaço" foi adaptada para o cinema em um curta-metragem (15") com direção de seu filho, Armando Praça Neto.

Obra

Assim me Contaram. (1ª Edição 1996 e 2ª Edição 2015)
Histórias de Assombração do Aracati. Publicação do autor. (1ª Edição 2006 e 2ª Edição 2016)
Ponte Presidente Juscelino Kubitschek. (2009)
A Maçonaria em Aracati (1920-1949). (2010)
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