O brinco grande de pena na orelha esquerda, o cordão do Afoxé Filhos de Gandhi por cima da camiseta regata branca, a fita do Senhor do Bonfim azul no pulso direito, os caracóis dos cabelos negros, e a bermuda colada, que entregavam no máximo cinquenta e poucos quilos, não levavam a diferenciá-lo do original Caetano. Aliás, o que se mostrava diverso, era um cordão de ouro com um crucifixo que deveria ser algum mimo de família.
Fã do baiano famoso desde o mitológico show Circuladô, que houve no Parque do Cocó, debaixo de um temporal, Antonieta se impactou com aquela visão e se aproximou, sentando-se na primeira mesa, pedindo uma dose de gim. A amiga Lívia, doida por sexo, se incomodou: “Porra, mulher, resolveu gamar nesse clone do Caetano Veloso, ó pá isso, sei não...” Antonieta não ligou. Fixou o olhar e cantaram juntos: “Às vezes no silêncio da noite...eu fico imaginando nós dois”[2] ...
De tanto Lívia reclamar, Antonieta redarguiu que gostava na verdade de homens cultos, sensíveis, magros, poéticos, nada de gorilas de academia. Wellis entendia o brilho nos olhos dela, fixava o olhar e seduzia com a voz suave abaianada:
- “Você é linda, mais que demais, você é linda sim, onda do mar do amor que bateu em mim...” [3]
Lívia se exalta: “Nêta, eu gosto de homem musculoso, com pegada... não sei não...vou dar um rolê, valeu”.
Após a pequena apresentação, enquanto Lívia se atracava com um lutador de MMA gigante no balcão do bar, Wellis se sentava ao lado de Antonieta. Gentilmente puxava conversa, mas não era possível... Antonieta até coçava os olhos... Era Caetano disfarçado de Wellis, não o contrário... O compositor rejuvenescia e se passava por Wellis... Era ele sim! Mais novo, é verdade, como era nos anos oitenta, mas era ele sim... Não restava qualquer dúvida... Até no jeito de falar e na forma em que se referia a outros famosos como se fosse muito íntimo. “Bethânia isso, Gal aquilo, Gil é lindo. A Bahia tem um jeito.”[4] Tratava Pedro Almodóvar como se fosse um irmão. Referia-se em respeito a Caymmi e Jorge Amado, ícones baianos. Reclamava da mídia, da caretice e da burrice que impregnava a cultura em geral. Achava Londres “deprê”, remetendo-o a más lembranças do período de exílio. E o papo rendia enquanto Wellis mexia e remexia os caracóis dos cabelos[5].
Mais tarde, no motel, Wellis despia-se da fantasia de Caetano Veloso. Mostrava-se um amante viril. Másculo. Insaciável. Tarado. Falava até palavrão, mesmo que um pouco agoniado. Antonieta, no início, estranhou, mas gostou da brincadeira, do jogo de sedução. Aliás, gostou muito. Amaram-se. Repetiram. Beberam. Fumaram. Riram. Beijaram-se novamente e vestiram-se de volta à realidade, no dia seguinte. Realidade para ela.
Antonieta passou a frequentar semanalmente o Noite na Aldeia, sem notícias de Wellis. Era frustrante. Dedé nunca mais o vira. Lívia começou a namorar o lutador fortão e ciumento e não saía mais de casa. Quando, desesperada, perguntava aos frequentadores do bar sobre Wellis, aqueles respondiam em tom de deboche: “olha, eu não vi Caetano, mas ontem o Djavan cantou aqui e me disseram que amanhã terá show do Milton Nascimento...”. Antonieta sofria. Nada de Wellis. Será que ele não gostou dela?
Cansada de ver a amiga agoniada pelo Caetano cover, Tereza, uma vizinha, chamou-a para uma vaquejada. Antonieta precisava conhecer o Mudinho do Forró. Também era magro, mas tinha o cabelo bem aparado, camisa xadrez, calça jeans. Chapéu de vaqueiro. Era surdo mudo de nascença, mas se garantia na cama, podia ter algum amigo que se interessasse por ela e a fizesse esquecer a roubada em que se metera. Antonieta, uma estudante de arquitetura, que odiava forró, topou ir até a tal festa.
Ao chegar lá, ficou atônita. Não era possível. O Mudinho forrozeiro, que só se comunicava com a linguagem própria dos surdos, era Wellis disfarçado. Safado, estava transando com Tereza, aquele canalha. Ao se aproximar, identificou logo o crucifixo no pescoço dele e o arrancou com a volúpia própria das mulheres traídas: “Wellis, seu cachorro!”
O baiano não aguentou e esqueceu que fingia ser um surdo-mudo: “devolve o meu cordão, miséra, foi presente de mãinha!”
Ao perceber o milagre de ouvir um mudo falar, agora era a vez de Teresa entrar em transe e segurar com força o braço do rapaz: “afinal, quem é você? Esse tal de Wellis que Antonieta tanto fala ou o Mudinho?”
Os três pararam num instante e se entreolharam. Cabisbaixo, com ar de derrotado ao ser descoberto em seu lance de disfarces, só restava ao homem confessar, batendo forte no peito: “Sou Caetano Veloso... mas quando estou com cabelo curto, me chamo Wellis Regina!”
[1] Na presente crônica, há trechos das seguintes músicas: “Terra” e “Você é linda”, de Caetano Veloso; “Sozinho” de autoria de Peninha e “Debaixo dos Caracóis dos seus Cabelos”, de Erasmo Carlos Roberto Carlos. Os nomes das personagens femininas foram inspirados nas obras de Jorge Amado: Tieta do Agreste, Mar Morto e Tereza Batista Cansada de Guerra.
[2] Sozinho (Aroldo Alves Sobrinho - Peninha)
[3] Você é linda (Caetano Veloso)
[4] Terra (Caetano Veloso)
[5] Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos (Erasmo Carlos/Roberto Carlos)
