Aracati

Monday, 22 June 2026 11:22

TROCA DE ALIANÇAS

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Colagem Digital: Marciano Ponciano Colagem Digital: Marciano Ponciano

Vizinha ao propalado Bar do Joaquim, notório recanto dos infelizes, que se diziam milionários, mas com as prestações atrasadas das caminhonetes importadas estacionadas em fileiras, figura uma pequena mercearia, de propriedade do quixadense Orelha, de parca freguesia de bebuns, mas ponto sagrado do Professor Braga, em todas as manhãs de domingo.

Preparando-se para um jogo do Ferroviário Atlético Clube, no Presidente Vargas, a turma de cinco rapazes se reuniu ao redor do velho Braga, ali no balcão da mercearia mesmo, pois seria muita audácia querer sentar-se à mesa com a grã-finagem do afamado vizinho Bar do Joaquim.

Súbito, o professor, macaco velho das lides amorosas, avistou uma aliança reluzente na mão direita de um dos jovens, Rafael, estudante de Engenharia, que vez ou outra falava o nome de uma moça que dizia ser sua noiva.

— “Não gosto de aliança”, dizia o professor.                          

De olhos fixos no anel brilhoso que Rafael orgulhosamente exibia à mão direita, Braga enfia o recorte de jornal embaixo do braço, e se põe a dissertar sobre o casamento. No início, a garotada pensava se tratar de uma conversa de bêbado, mas com o discorrer da fala viu-se que havia algum sentido na retórica do velho:

— “Esse negócio de casamento deve ser pensado com muita calma. Nem sempre a namoradinha carinhosa que enfrenta maratonas de séries de netflix ao seu lado o suportaria nos momentos de liseira pesada, contas atrasadas e em nível alto de estresse.

Casei-me três vezes, na primeira aos dezoito anos, num ato de impulso. Arrependido, me joguei numa farra louca, numa dessas me dei mal, e saí de casa humilhado pedindo guarita para a minha mãe que me botou para dormir no depósito nos fundos da velha casa na avenida do Imperador junto com a ração das galinhas. Tudo por culpa de uma aliança.

Restabelecido, me juntei a uma viúva rica, ela acabou falindo e eu sustentando a turma toda enquanto era comparado dia e noite com o finado. Pulei fora e aluguei um flat que cabia só a mim e o meu acervo de discos e livros. Ali, fui muito feliz. Sozinho, um dia no uísque, no outro, Frank Sinatra na vitrola.

Por isso, sempre que vejo jovens como vocês, recém-formados, fazendo juras de amor, banquetes milionários e viagens mundo afora como lua-de-mel, penso se suportariam o day after da festa, os filhos doentes, o saldo negativo da conta bancária, o tédio que banaliza o romance, e as diferenças que abundam e somente são constatadas no cotidiano de um matrimônio. E nem adianta querer trocar de esposa por um determinado defeito que não lhe apraz, pois é certo que a nova companhia terá outros defeitos que eventualmente também vão começar a incomodar.”

Curioso, Rafael perquire ao Braga como terminou o terceiro casamento.

— “Exigia aliança, não uso nem a pau.”

Todos riram.

— “Mas por qual motivo o senhor não suporta aliança?”

— “Casei pela primeira vez, como disse, era muito moço. Na época Fortaleza era uma aldeia, tudo fechava cedo. Os meus colegas de universidade queriam ir para uma festa black tie, e eu era o único casado. Haveria umas menininhas para a gente se animar e eu me empolguei. Na época, meus filhos eram pequenos e estava esgotado do incômodo de uma rotina de problemas. Não pensei duas vezes, guardei a aliança no bolso do paletó e fantasiei que ainda era solteiro como os meus amigos.

Ao final da festa, quase de manhã, quando percebi, não localizei a maldita aliança. Dei dez contos a um menino que revirou o paletó e não a encontrou. Pensei em inventar que teria sido assaltado, mas no auge da embriaguez, preferi bater à porta de uma muambeira, minha vizinha, que também vendia joias e comprei a primeira aliança que me coube na medida certa. Depois eu resolveria esse problema. Certa hora do dia, ainda de ressaca vejo a mulher mexendo no meu paletó, e um barulho fazendo plim plim, era a tal aliança que procurei a noite toda caindo no chão. Enquanto isso, eu mantinha a outra aliança, falsa, na mão.”

— “E aí, o que aconteceu?”

— “Até hoje não consegui explicar para ela o que eu fazia com duas alianças”.

A turma se despediu aos risos, mas Rafael permanecia sisudo. Olhava para a aliança, mexia e remexia. Soube-se que meses depois o jovem estudante rompeu o noivado.

O velho Braga, por sua vez, hoje vive muito bem. Casado pela quarta vez, tem a liberdade de, aos domingos, beber sua cachacinha na Mercearia do Orelha e mantém um pequeno quarto para o seu acervo particular.

Só que ainda resiste a usar alianças.

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Lucio Telmo

Lucio Telmo Meireles de Oliveira Jr. é natural de Fortaleza-CE, mas reside em Aracati-CE há cerca de 20 anos. É advogado formado em Direito pela UNIFOR. Durante muitos anos, foi professor universitário e ocupou cargos públicos em Aracati e Mossoró. É um dos membros fundadores da Academia Aracatiense de Letras e articulista da Revista Gente de Ação desde 2014.

É autor dos seguintes textos:

Guarda Compartilhada: Aspectos jurídicos da gestão conjunta da guarda dos filhos (2002);

O pagamento e o parcelamento como extinção da punibilidade nos crimes contra a ordem tributária (2006);

Meu coração não é meu (2010),

Zé Costa (2013),

Liberato, o conselheiro do Império (2015)

Quando o Olho Brilhou (2017).

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O Grupo Lua Cheia, com sede na cidade de Aracati-CE, é um coletivo de artistas formado em 1990 com o objetivo de fomentar, divulgar e pesquisar a arte e a cultura.