Castorina, coitada, despertava do sono irritada com aquele barulho inoportuno e intempestivo, que a deixava importunada e indisposta pelo resto da tarde. A mulher passava do cochilo ao mau humor num pulo, e o tal vendedor parecia ter o dom de estragar-lhe o dia com precisão de relógio suíço.
Até que, num certo dia, já cansada desse aborrecimento, resolveu esperar no portão de sua casa o berrante vendedor. Ficou ali plantada, firme como sentinela, aguardando o momento da passagem do tormento ambulante. E não demorou: ao avistar aproximar-se aquele sujeito muito magro — franzino mesmo — que gritava sem parar anunciando seus produtos, Castorina não se conteve. Endireitou a postura, respirou fundo e interpelou o ambulante com a pontaria certeira de quem não perde viagem:
— Oh! Pirulito Mal Chupado, dá pra tu vender essas bugigangas sem gritar?
Foi como jogar água na fervura. O vendedor sumiu da rua da Senhora dos Apelidos, porque, a partir daquele dia, não houve morador que não chamasse o pobre coitado por outro nome que não fosse Pirulito Mal Chupado.
