Com o passar dos anos, já madura e sem os predicativos que a juventude empresta ao corpo, Rosa foi se ajeitando como diarista nas casas de família de Aracati. Era o que lhe restava, e fazia com dignidade. Trazia, porém, uma mania que o povo nunca entendeu direito. Diziam que era por economia, outros por teimosia, mas Rosa mesma sabia que aquilo vinha da seca braba: acostumara-se a viver sem água, a racionar cada pingo como se fosse ouro, e o hábito de não se banhar ficou grudado nela como poeira de estrada. Por isso, com o tempo, ganhou um apelido que a acompanhou até o fim da vida.
Uma novidade foi introduzida no comércio local pela Loja Goiana, localizada na antiga Travessa Cel. Valente, que vendia fazendas, chapéus e miudezas, lançando na praça uma seção de perfumaria, onde o destaque era a essência de um sabonete.
Castorina, que utilizava em sua casa os serviços de Rosa, resolveu comprar esse especial sabonete de que tanto falavam nas rodas de calçadas e que se tornara um presente favorito aos aniversariantes.
— Sr. Luís, esse sabonete limpa melhor do que sabão em barra?
— Além de limpar, Dona Castorina, deixa um cheiro de flor de laranjeira. É para a senhora mesmo ou presente?
— É para teste, seu Luís. Quero ver se esse cheiro de flor de laranjeira convence Rosa Seroto a se lembrar que água ainda existe no mundo. Vai fazer uma serventia lá em casa e quero ela cheirando mais pra jardim do que pra estiagem.
