Castorina, então, encarou os dois com uma advertência que veio ligeira, antes que a conversa tomasse rumo perigoso: — Olha… apesar de eu parecer muito antiga, eu não sou tão velha assim, viu? Velhice por aqui tinha era as Sebinhos, aquelas moças velhas do Aracati, que já nasceram com cara de lembrança antiga. Eu só escutei umas histórias desse doutor que vocês procuram por causa delas, que viviam debruçadas nas janelas, farejando a vida alheia como quem vigia panela no fogo.
E, sentindo que os parentes insistiam em tratá-la como arquivo vivo, Castorina resolveu caprichar na descrição. Se fosse pra falar, que fosse com gosto: — Pois bem… as Sebinhos falavam desse doutor esquisito que viveu por aqui. Diziam que ele nunca saiu do século em que nasceu. Morava num sobrado vizinho ao cinema São José, que já foi derrubado. Toda manhã, ele saía empacotado numa roupa tão antiga que parecia ter sido herdada de um retrato. Aquilo já não se usava nem quando minha avó era moça! E olhe que minha avó, sim, era do tempo do ronco da ema.
Castorina percebeu o casal atento e continuou, agora com um brilho maroto no olhar: — Ele ia pra redação do jornal O Jaguaribe conversar com João Freire. Quando passava nas calçadas, os meninos corriam com medo. E não era pra menos: diziam que tinha sido médico, mas naquele tempo já não era mais nada… só uma lembrança ambulante.
E, como quem dá o golpe final, Castorina foi subindo o tom, cada vez mais debochada: — Ambrosina, a Sebinho mais curiosa, aquela que não tirava o olho da rua e que até simpatizava com ele, descrevia o homem como alto e magro, parecendo um espeto. Sempre metido num fraque preto, abotoado até o nó da goela, como se tivesse medo de que o pescoço fugisse. Nunca soube o nome dele, nem se tinha apelido… mas, pelo que contavam, pra mim era ver um chapéu de sol enrolado. Satisfeitos? Passar bem!
