Aracati

Tuesday, 26 May 2026 10:37

CASTORINA PINTO | CHAPÉU DE SOL ENROLADO

Written by
Rate this item
(3 votes)
Castorina Pinto (Detalhe). Foto: Geraldo Oliveira Castorina Pinto (Detalhe). Foto: Geraldo Oliveira Colagem Digital: Marciano Ponciano

Uma certa manhã, Castorina Pinto foi abordada por um casal de mais idade, muito alinhadinho, querendo saber dela se, no tempo antigo, tivera conhecimento de um médico meio esquisito que morava na Rua Grande. Castorina estranhou aquele interrogatório sem pausa — parecia até inquérito — e logo percebeu que o casal não era da terra. Ajeitou a bolsa no braço, desconfiada, e perguntou se o tal médico era parente deles. Responderam que sim e que tinham interesse em saber algo do paradeiro ou da convivência dele em Aracati.

Castorina, então, encarou os dois com uma advertência que veio ligeira, antes que a conversa tomasse rumo perigoso: — Olha… apesar de eu parecer muito antiga, eu não sou tão velha assim, viu? Velhice por aqui tinha era as Sebinhos, aquelas moças velhas do Aracati, que já nasceram com cara de lembrança antiga. Eu só escutei umas histórias desse doutor que vocês procuram por causa delas, que viviam debruçadas nas janelas, farejando a vida alheia como quem vigia panela no fogo.

E, sentindo que os parentes insistiam em tratá-la como arquivo vivo, Castorina resolveu caprichar na descrição. Se fosse pra falar, que fosse com gosto: — Pois bem… as Sebinhos falavam desse doutor esquisito que viveu por aqui. Diziam que ele nunca saiu do século em que nasceu. Morava num sobrado vizinho ao cinema São José, que já foi derrubado. Toda manhã, ele saía empacotado numa roupa tão antiga que parecia ter sido herdada de um retrato. Aquilo já não se usava nem quando minha avó era moça! E olhe que minha avó, sim, era do tempo do ronco da ema.

Castorina percebeu o casal atento e continuou, agora com um brilho maroto no olhar: — Ele ia pra redação do jornal O Jaguaribe conversar com João Freire. Quando passava nas calçadas, os meninos corriam com medo. E não era pra menos: diziam que tinha sido médico, mas naquele tempo já não era mais nada… só uma lembrança ambulante.

E, como quem dá o golpe final, Castorina foi subindo o tom, cada vez mais debochada: — Ambrosina, a Sebinho mais curiosa, aquela que não tirava o olho da rua e que até simpatizava com ele, descrevia o homem como alto e magro, parecendo um espeto. Sempre metido num fraque preto, abotoado até o nó da goela, como se tivesse medo de que o pescoço fugisse. Nunca soube o nome dele, nem se tinha apelido… mas, pelo que contavam, pra mim era ver um chapéu de sol enrolado. Satisfeitos? Passar bem!

Read 119 times Last modified on Tuesday, 26 May 2026 10:51
Antero Pereira Filho

ANTERO PEREIRA FILHO, nasceu em Aracati-CE em 30 de novembro de 1946. Terceiro filho do casal Antero Pereira da Silva e Maria Bezerra da Silva, Antero cresceu na Terra dos Bons Ventos, onde foi alfabetizado pela professora Dona Preta, uma querida amiga da família. Estudou no Grupo Escolar Barão de Aracati até 1957 e, a partir de 1958, no Colégio Marista de Aracati, onde concluiu o Curso Ginasial.
Em 1974, Antero casou-se com Maria do Carmo Praça Pereira e juntos tiveram três filhos: Janaina Praça Pereira, Armando Pinto Praça Neto e Juliana Praça Pereira. Graduou-se em Ciências Econômicas pela URRN-RN em 1976 e desde então tem se destacado em sua carreira profissional.
Antero atuou como presidente do Instituto do Museu Jaguaribano em duas gestões (1976-1979/1982-1985) e foi secretário na gestão do prefeito Abelardo Gurgel Costa Lima Filho (1992-1996), responsável pela Secretaria de Indústria, Comércio, Turismo e Cultura.
Além de sua carreira profissional, Antero é conhecido por seus estudos sobre a história e a memória da cidade e do povo aracatiense, amplamente divulgados em crônicas e artigos publicados na imprensa local desde 1975. Em 2005, sua crônica "O Amor do Palhaço" foi adaptada para o cinema em um curta-metragem (15") com direção de seu filho, Armando Praça Neto.

Obra

Assim me Contaram. (1ª Edição 1996 e 2ª Edição 2015)
Histórias de Assombração do Aracati. Publicação do autor. (1ª Edição 2006 e 2ª Edição 2016)
Ponte Presidente Juscelino Kubitschek. (2009)
A Maçonaria em Aracati (1920-1949). (2010)
Aracati era assim... (2024)
Relíquias de uma campanha (2024)
Aracaty: 1862, cólera-morbo (2025)
Fatos e Acontecimentos Marcantes da História do Aracati. (Inédito)
Notícias do Povo Aracatiense (Inédito)

Login to post comments

Sobre nós

O Grupo Lua Cheia, com sede na cidade de Aracati-CE, é um coletivo de artistas formado em 1990 com o objetivo de fomentar, divulgar e pesquisar a arte e a cultura.