Quando o juiz José Nogueira chegou ao Aracati, recém-saído de Aquiraz, trazia consigo aquela solenidade típica de quem acredita que a vida se dobra diante da toga. Mal sabia ele que, antes de enfrentar qualquer processo, enfrentaria Castorina Pinto — instituição mais antiga que o próprio fórum. Hospedou-se no hotel dela sem imaginar o risco. Só descobriu quando a moça que lhe armou a rede, entre risos contidos, confirmou que sim: aquela era a famosa Castorina, a mesma que espalhava apelidos pela cidade com a pontaria de quem atira pedrinhas no rio e acerta sempre o mesmo ponto.
A revelação caiu sobre o juiz como sentença inesperada. Ficou inquieto, imaginando que tipo de alcunha sua pessoa poderia inspirar. E, como se adivinhasse o tumulto mental do hóspede, Castorina apareceu à porta do quarto. Surgiu ligeira, contrariando a própria fama de velhice que vivia proclamando, e tratou logo de tranquilizá-lo, ou pelo menos fingir que tranquilizava. Disse que já não tinha o mesmo faro para apelidos, que a idade lhe embotara a verve e que agora era o povo quem inventava nomes para ela. O juiz, desconfiado, percebeu que aquela vivacidade toda não combinava com a história que ouvia de Castorina, mas preferiu acreditar. Pediu apenas que ela não lhe botasse apelido.
Castorina, porém, tinha seus próprios cálculos. Quis saber quanto tempo ele ficaria no hotel antes de trazer a família. Ao ouvir que seriam cinco ou seis dias, abriu um sorriso que misturava promessa e travessura. Riu alto, como quem já enxerga o apelido antes mesmo de pronunciá-lo, e garantiu que, se algum nome lhe viesse à cabeça, seria bonito, porque o doutor, segundo ela, merecia um apelido bonito.
E assim, entre a astúcia de Castorina e o receio do magistrado, plantou-se a semente da alcunha que ainda germinaria no tempo certo, como tudo que nasce da mão certeira daquela mulher que o Aracati aprendeu a temer e a amar. A botadeira de apelidos foi se despedindo do hóspede e observando sua cachola avantajada...
O juiz alugou um sobrado e trouxe a família. Sua residência logo se tornou um ponto de encontro da sociedade de Aracati, onde recebia as autoridades e convidados que discutiam os problemas da cidade como a falta de uma ponte, a restauração do porto do Fortim, o abastecimento d’água, a falta de energia...
Ao completar um ano e meio de magistratura no Aracati, o juiz Nogueira já se encontrava plenamente ajustado aos costumes locais e ao movimento cotidiano da cidade. Era como se sempre tivesse pertencido ao cenário. Mas a tranquilidade dessa adaptação não duraria: um telegrama inesperado veio alterar o rumo de sua vida. Nele, chegava a notícia de sua promoção para a cidade de Sobral. Diante disso, o juiz e sua esposa iniciaram os preparativos para as inevitáveis formalidades das despedidas.
Faltando uma semana para a partida, a mulher do magistrado, tomada por curiosidade antiga, perguntou ao marido se Castorina, afinal, não lhe havia posto apelido. Ele respondeu que acreditava que não, explicando que ela já não estava mais no hotel, pois agora trabalhava na Prefeitura.
No dia de se despedir de Castorina, ao comunicar-lhe a transferência para uma comarca de 2ª entrância, o juiz Nogueira, sentindo-se vitorioso, não resistiu à tentação de se gabar. Disse que deixaria o Aracati sem ter recebido o apelido que tanto temera, insinuando que talvez Dona Castorina tivesse perdido a verve. Ela, com a serenidade de quem conhece o peso das próprias histórias, limitou-se a afirmar que ele não tinha motivo algum para ser apelidado.
Encerrados os cumprimentos, Castorina retornou aos seus afazeres na Prefeitura. Lá, ao encontrar Biar, sua companheira de trabalho, comentou em tom de confidência e malícia:
— O cabeça de comarca queria ganhar um apelido… imagine, Biar.
