Enquanto permaneceu restrito aos sócios e convidados, o Aracaty Club oferecia aos seus frequentadores um salão de sinucas e bilhar, além de um bar sortido e elegante que atendia com esmero aos seus assíduos. Era um universo cuidadosamente moldado para agradar aos que prezavam por refinamento e discrição.
O cassino funcionava numa área privada e era território reservado aos figurões da sociedade e à gente de largo cabedal, que ali se reunia para testar a sorte e exibir, com naturalidade estudada, o peso de seus bolsos e sobrenomes.
A Associação Recreativa Aracatiense, a conhecida ARA, surgira com o propósito de congregar moças e rapazes daquela juventude dourada, incentivando a prática esportiva e oferecendo um espaço onde pudessem exercitar seus dotes atléticos e, não menos importante, exibir sua beleza. Era um clube dentro do clube, dedicado à vitalidade e ao brilho daquela mocidade.
O point de toda essa elite juvenil concentrava-se justamente no Aracaty Club, onde, todas as tardes, partidas de vôlei se desenrolavam como um verdadeiro festival de esportividade, sociabilidade e encanto. Ao mesmo tempo, o ambiente se transformava num desfile de elegância, exibicionismo e cortejamento, com pares circulando pelos salões como se participassem de uma coreografia social cuidadosamente ensaiada.
Foi numa dessas tardes amenas que Castorina Pinto, recém-chegada do expediente na prefeitura e enfatiotada com seu vestido rodado, resolveu conduzir uma sobrinha recém-vinda de Fortaleza ao convívio do high society aracatiense.
Ainda se encontrava nas apresentações, distribuindo elogios aos tecidos engomados e comparando penteados que faiscavam como pequenas constelações, quando, de repente, a cena se rompeu com a entrada inesperada de uma figura que parecia ter escapado de outro enredo social. Surgiu do banheiro feminino e avançou para o salão de baile uma moça muito magra, de pernas longas, equilibrada em sapatos altíssimos e comprimida numa calça tão justa que parecia desafiar a costura. Era seguida por um grupo de acompanhantes que fazia uma tremenda algazarra.
Castorina voltou-se para a sobrinha, igualmente pasmada, e murmurou com espanto contido:
— De onde despontou aquele COMPASSO?!
