No seu interessante relato, Aniceto começa falando dos antigos currais eleitorais: "No dia das eleições, os chefes políticos forneciam aos seus eleitores orientações de como votar e o sempre farto repasto na hora do almoço. Havia transporte para buscar o eleitor e levá-lo de volta às suas casas." Conclui: "Conheci até eleitores que somente votavam no finalzinho do dia. Isso era feito de propósito para que os bons tratos daquele dia tivessem maior duração."
Continua ainda nosso memorialista, citando outras formas de convencimento ao eleitor, contando o fato da senhora Ester Coelho da Costa, conhecida como Ester Palpitante, eleitora inalienável de Abelardo Costa Lima, que fazia, nas seções eleitorais, eficientes trabalhos de "boca de urna", tentando — e muitas vezes conseguindo — até a última hora angariar votos para esse candidato de sua predileção partidária.
Depois dessas preliminares, vamos ao foco principal de nossa história. Na disputadíssima eleição municipal de 1950, o candidato a prefeito pelo PSD, Renato Caminha, havia doado um corte de tecido para ser usado por determinado eleitor da UDN no dia das eleições. Como até a corrupção eleitoral daquela época, tanto de um lado quanto do outro, era menos desonesta que nos dias atuais, esse eleitor procurou contato com seu partido, por intermédio do cabo eleitoral e candidato a vereador Antônio Ponciano da Costa. Esse fiel udenista pretendia, assim, esclarecer o motivo pelo qual não iria votar, naquele 3 de outubro, em Abelardo, e sim em Renato, candidato da oposição, pois se sentia comprometido eleitoralmente com este em razão do mimo recebido.
Havendo exposto os motivos de tão importante decisão, teria o senhor Antônio Ponciano indagado ao eleitor:
— Ele lhe deu a linha e os botões?
— Não, senhor — respondeu o tal eleitor.
De imediato, Antônio Ponciano acrescentou:
— E como o senhor vai fazer essa roupa sem linha e sem botões?
Em face de tal colocação, teria esse homem simples do povo ficado atarantado e um pouco confuso. Nesse exato instante, esse inteligentíssimo político udenista foi buscar tais aviamentos de costura e, em seguida, entregou-os ao cidadão, agora indeciso, dizendo-lhe:
— Meu filho, eis aqui a linha e os botões. Leve-os e mande fazer sua roupinha para o dia das eleições. Uniformize-se, fique bem alinhado e vote de acordo com a sua consciência.
Soube-se, logo depois, que esse eleitor havia votado no candidato da UDN. E quanto a isso, nunca teve qualquer dúvida o autor da mencionada peripécia eleitoral.
Assim, ganhou a inteligência. A linha e os botões valeram mais que o corte de tecido!
