História

Sunday, 07 June 2026 16:59

A LINHA E OS BOTÕES

Written by
Rate this item
(2 votes)
Renato Caminha, Antônio Ponciano e Abelardo G. Costa Lima Acervo: Antero Pereira Filho. Renato Caminha, Antônio Ponciano e Abelardo G. Costa Lima Acervo: Antero Pereira Filho. Fotomontagem: Marciano Ponciano

A prática de angariar votos na véspera da eleição continua, atualmente, igual ao passado, somente com método diferente. Aniceto da Costa escreveu uma crônica atualíssima narrando um acontecimento havido no Aracati ao tempo da eleição municipal de 1950, envolvendo personagens e lideranças daquela época.

No seu interessante relato, Aniceto começa falando dos antigos currais eleitorais: "No dia das eleições, os chefes políticos forneciam aos seus eleitores orientações de como votar e o sempre farto repasto na hora do almoço. Havia transporte para buscar o eleitor e levá-lo de volta às suas casas." Conclui: "Conheci até eleitores que somente votavam no finalzinho do dia. Isso era feito de propósito para que os bons tratos daquele dia tivessem maior duração."

Continua ainda nosso memorialista, citando outras formas de convencimento ao eleitor, contando o fato da senhora Ester Coelho da Costa, conhecida como Ester Palpitante, eleitora inalienável de Abelardo Costa Lima, que fazia, nas seções eleitorais, eficientes trabalhos de "boca de urna", tentando — e muitas vezes conseguindo — até a última hora angariar votos para esse candidato de sua predileção partidária.

Depois dessas preliminares, vamos ao foco principal de nossa história. Na disputadíssima eleição municipal de 1950, o candidato a prefeito pelo PSD, Renato Caminha, havia doado um corte de tecido para ser usado por determinado eleitor da UDN no dia das eleições. Como até a corrupção eleitoral daquela época, tanto de um lado quanto do outro, era menos desonesta que nos dias atuais, esse eleitor procurou contato com seu partido, por intermédio do cabo eleitoral e candidato a vereador Antônio Ponciano da Costa. Esse fiel udenista pretendia, assim, esclarecer o motivo pelo qual não iria votar, naquele 3 de outubro, em Abelardo, e sim em Renato, candidato da oposição, pois se sentia comprometido eleitoralmente com este em razão do mimo recebido.

Havendo exposto os motivos de tão importante decisão, teria o senhor Antônio Ponciano indagado ao eleitor:

— Ele lhe deu a linha e os botões?

— Não, senhor — respondeu o tal eleitor.

De imediato, Antônio Ponciano acrescentou:

— E como o senhor vai fazer essa roupa sem linha e sem botões?

Em face de tal colocação, teria esse homem simples do povo ficado atarantado e um pouco confuso. Nesse exato instante, esse inteligentíssimo político udenista foi buscar tais aviamentos de costura e, em seguida, entregou-os ao cidadão, agora indeciso, dizendo-lhe:

— Meu filho, eis aqui a linha e os botões. Leve-os e mande fazer sua roupinha para o dia das eleições. Uniformize-se, fique bem alinhado e vote de acordo com a sua consciência.

Soube-se, logo depois, que esse eleitor havia votado no candidato da UDN. E quanto a isso, nunca teve qualquer dúvida o autor da mencionada peripécia eleitoral.

Assim, ganhou a inteligência. A linha e os botões valeram mais que o corte de tecido!

Read 155 times Last modified on Sunday, 07 June 2026 18:15
Antero Pereira Filho

ANTERO PEREIRA FILHO, nasceu em Aracati-CE em 30 de novembro de 1946. Terceiro filho do casal Antero Pereira da Silva e Maria Bezerra da Silva, Antero cresceu na Terra dos Bons Ventos, onde foi alfabetizado pela professora Dona Preta, uma querida amiga da família. Estudou no Grupo Escolar Barão de Aracati até 1957 e, a partir de 1958, no Colégio Marista de Aracati, onde concluiu o Curso Ginasial.
Em 1974, Antero casou-se com Maria do Carmo Praça Pereira e juntos tiveram três filhos: Janaina Praça Pereira, Armando Pinto Praça Neto e Juliana Praça Pereira. Graduou-se em Ciências Econômicas pela URRN-RN em 1976 e desde então tem se destacado em sua carreira profissional.
Antero atuou como presidente do Instituto do Museu Jaguaribano em duas gestões (1976-1979/1982-1985) e foi secretário na gestão do prefeito Abelardo Gurgel Costa Lima Filho (1992-1996), responsável pela Secretaria de Indústria, Comércio, Turismo e Cultura.
Além de sua carreira profissional, Antero é conhecido por seus estudos sobre a história e a memória da cidade e do povo aracatiense, amplamente divulgados em crônicas e artigos publicados na imprensa local desde 1975. Em 2005, sua crônica "O Amor do Palhaço" foi adaptada para o cinema em um curta-metragem (15") com direção de seu filho, Armando Praça Neto.

Obra

Assim me Contaram. (1ª Edição 1996 e 2ª Edição 2015)
Histórias de Assombração do Aracati. Publicação do autor. (1ª Edição 2006 e 2ª Edição 2016)
Ponte Presidente Juscelino Kubitschek. (2009)
A Maçonaria em Aracati (1920-1949). (2010)
Aracati era assim... (2024)
Relíquias de uma campanha (2024)
Aracaty: 1862, cólera-morbo (2025)
Fatos e Acontecimentos Marcantes da História do Aracati. (Inédito)
Notícias do Povo Aracatiense (Inédito)

Login to post comments

Sobre nós

O Grupo Lua Cheia, com sede na cidade de Aracati-CE, é um coletivo de artistas formado em 1990 com o objetivo de fomentar, divulgar e pesquisar a arte e a cultura.