No bar do Seu Samuel, Gustavo vivia em pé de guerra com os mais velhos, entre eles o Jares da Apacel.
— Nem Pelé, nem esse tal de Garrincha, que nem sei se existiu, chega aos pés de Ronaldinho!
— É porque você é um menino, Gustavo — retrucava um peru que assistia à partida de sinuca com ar de filósofo cansado. — Você não viu o Sirizinho daqui de Aracati jogar. Tinha a mesma ginga do Ronaldinho, mas naquele tempo não tinha televisão pra endeusar ninguém.
Com a Copa do Mundo chegando, Gustavo ficou mais acelerado ainda. A imprensa anunciava que Ronaldinho seria a estrela do mundial, que o mundo ia se ajoelhar diante dele assim que a bola rolasse nos campos da Alemanha. Lurdinha, sabendo do fanatismo do namorado, tratou logo de marcar um encontro em sua casa para assistirem ao jogo. Mas tinha um porém:
— Mãe, com aquele sofá na sala eu não convido ninguém!
Nair tentou argumentar, explicar que não podia comprar outro sofá porque já tinha parcelado a TV de 29 polegadas na Leléo-Móveis, por insistência do outro filho, Armando. Mas Lurdinha insistiu tanto, tanto, que Nair acabou cedendo e apelou — a contragosto — para Chico Negocioso, o homem que emprestava cartão de crédito para compra de terceiros, cobrando uma comissão.
— Nair, novo eu não posso comprar, não. Com essa história de Copa, comprei televisão demais e meu crédito estourou. Mas posso ir no Negócio da China e arranjar um sofá usado, mas bom. Bom mesmo — garantiu ele, com aquele sorriso de quem já está pensando no lucro.
Sem saída, Nair confiou. E ainda escondeu de Lurdinha que o sofá não seria novo, mas “conservado”. Confiou tanto que até acreditou quando Chico disse que arranjava coisa boa.
O sofá azul chegou no sábado quase ao meio-dia, no meio do alvoroço da preparação para o jogo entre o Brasil e a França de Zidane. Ninguém reparou que o modelo era igualzinho ao antigo — só mudava a cor: antes amarelo, agora azul-escuro. A sala ficou entupida de gente; até Biba, amigo de Gustavo, apareceu para engrossar o coro da esperança de vingança pela derrota de 1998, em que a França foi campeã mundial, derrotando a seleção brasileira na final por 3 x 0.
— Hoje é o dia da vingança! — gritava Gustavo, sentado ao lado de Lurdinha. — Em 98 a gente não tinha Ronaldinho. Hoje tem. Hoje é diferente!
Mas a animação desabou quando a França fez o gol, numa falha tão escandalosa que até a televisão pareceu se envergonhar. Roberto Carlos ajeitava as meias enquanto Thierry Henry ajeitava a bola no fundo da rede. A sala virou um pandemônio.
Armando, já calibrado de cerveja, levantou-se do sofá e começou a berrar diante da TV:
— Seleção de veados! Seleção de veados! E, virando-se para Gustavo, completou: — A maior boneca é esse Ronaldinho Gaúcho com essa tiara no cabelo! Boneca! Bicha!
— Bicha não! — gritou Gustavo, indignado, e desferiu um murro no assento do sofá.
Foi aí que o destino, a mola e o tecido azul decidiram trabalhar juntos. A mola saltou como cobra enfurecida, rasgou o pano, trouxe à tona o antigo tecido amarelo e ainda abriu a mão de Gustavo, que começou a rodopiar pela sala gritando: — Tô ferido! Tô ferido! Tô ferido!
— Detergente! — berrava Biba. — A mola tá enferrujada! Só detergente cura ferimento de mola enferrujada!
E enquanto Gustavo sangrava, Lurdinha gritava, Armando xingava e a França comemorava, a verdade veio à tona: Chico Negocioso não comprara sofá nenhum. Mandou foi reformar o velho, trocando só o pano e deixando a mola assassina no mesmo lugar.
