Aracati

Friday, 19 June 2026 10:09

EM TEMPO DE COPA DO MUNDO: O SOFÁ

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EM TEMPO DE COPA DO MUNDO: O SOFÁ Colagem Digital: Marciano Ponciano

Aquele sofá — aquele mesmo, com a mola atrevida apontando para o mundo como quem diz “sente aqui pra ver” — estacionado no canto da sala de Nair, era a vergonha de Lurdinha. E vergonha grande, porque a moça namorava Gustavo, um sujeito que respirava futebol, transpirava futebol e que considerava Ronaldinho Gaúcho o melhor jogador de todos os tempos.

No bar do Seu Samuel, Gustavo vivia em pé de guerra com os mais velhos, entre eles o Jares da Apacel.

— Nem Pelé, nem esse tal de Garrincha, que nem sei se existiu, chega aos pés de Ronaldinho!

— É porque você é um menino, Gustavo — retrucava um peru que assistia à partida de sinuca com ar de filósofo cansado. — Você não viu o Sirizinho daqui de Aracati jogar. Tinha a mesma ginga do Ronaldinho, mas naquele tempo não tinha televisão pra endeusar ninguém.

Com a Copa do Mundo chegando, Gustavo ficou mais acelerado ainda. A imprensa anunciava que Ronaldinho seria a estrela do mundial, que o mundo ia se ajoelhar diante dele assim que a bola rolasse nos campos da Alemanha. Lurdinha, sabendo do fanatismo do namorado, tratou logo de marcar um encontro em sua casa para assistirem ao jogo. Mas tinha um porém:

— Mãe, com aquele sofá na sala eu não convido ninguém!

Nair tentou argumentar, explicar que não podia comprar outro sofá porque já tinha parcelado a TV de 29 polegadas na Leléo-Móveis, por insistência do outro filho, Armando. Mas Lurdinha insistiu tanto, tanto, que Nair acabou cedendo e apelou — a contragosto — para Chico Negocioso, o homem que emprestava cartão de crédito para compra de terceiros, cobrando uma comissão.

— Nair, novo eu não posso comprar, não. Com essa história de Copa, comprei televisão demais e meu crédito estourou. Mas posso ir no Negócio da China e arranjar um sofá usado, mas bom. Bom mesmo — garantiu ele, com aquele sorriso de quem já está pensando no lucro.

Sem saída, Nair confiou. E ainda escondeu de Lurdinha que o sofá não seria novo, mas “conservado”. Confiou tanto que até acreditou quando Chico disse que arranjava coisa boa.

O sofá azul chegou no sábado quase ao meio-dia, no meio do alvoroço da preparação para o jogo entre o Brasil e a França de Zidane. Ninguém reparou que o modelo era igualzinho ao antigo — só mudava a cor: antes amarelo, agora azul-escuro. A sala ficou entupida de gente; até Biba, amigo de Gustavo, apareceu para engrossar o coro da esperança de vingança pela derrota de 1998, em que a França foi campeã mundial, derrotando a seleção brasileira na final por 3 x 0.

— Hoje é o dia da vingança! — gritava Gustavo, sentado ao lado de Lurdinha. — Em 98 a gente não tinha Ronaldinho. Hoje tem. Hoje é diferente!

Mas a animação desabou quando a França fez o gol, numa falha tão escandalosa que até a televisão pareceu se envergonhar. Roberto Carlos ajeitava as meias enquanto Thierry Henry ajeitava a bola no fundo da rede. A sala virou um pandemônio.

Armando, já calibrado de cerveja, levantou-se do sofá e começou a berrar diante da TV:

— Seleção de veados! Seleção de veados! E, virando-se para Gustavo, completou: — A maior boneca é esse Ronaldinho Gaúcho com essa tiara no cabelo! Boneca! Bicha!

— Bicha não! — gritou Gustavo, indignado, e desferiu um murro no assento do sofá.

Foi aí que o destino, a mola e o tecido azul decidiram trabalhar juntos. A mola saltou como cobra enfurecida, rasgou o pano, trouxe à tona o antigo tecido amarelo e ainda abriu a mão de Gustavo, que começou a rodopiar pela sala gritando: — Tô ferido! Tô ferido! Tô ferido!

— Detergente! — berrava Biba. — A mola tá enferrujada! Só detergente cura ferimento de mola enferrujada!

E enquanto Gustavo sangrava, Lurdinha gritava, Armando xingava e a França comemorava, a verdade veio à tona: Chico Negocioso não comprara sofá nenhum. Mandou foi reformar o velho, trocando só o pano e deixando a mola assassina no mesmo lugar.

 

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Antero Pereira Filho

ANTERO PEREIRA FILHO, nasceu em Aracati-CE em 30 de novembro de 1946. Terceiro filho do casal Antero Pereira da Silva e Maria Bezerra da Silva, Antero cresceu na Terra dos Bons Ventos, onde foi alfabetizado pela professora Dona Preta, uma querida amiga da família. Estudou no Grupo Escolar Barão de Aracati até 1957 e, a partir de 1958, no Colégio Marista de Aracati, onde concluiu o Curso Ginasial.
Em 1974, Antero casou-se com Maria do Carmo Praça Pereira e juntos tiveram três filhos: Janaina Praça Pereira, Armando Pinto Praça Neto e Juliana Praça Pereira. Graduou-se em Ciências Econômicas pela URRN-RN em 1976 e desde então tem se destacado em sua carreira profissional.
Antero atuou como presidente do Instituto do Museu Jaguaribano em duas gestões (1976-1979/1982-1985) e foi secretário na gestão do prefeito Abelardo Gurgel Costa Lima Filho (1992-1996), responsável pela Secretaria de Indústria, Comércio, Turismo e Cultura.
Além de sua carreira profissional, Antero é conhecido por seus estudos sobre a história e a memória da cidade e do povo aracatiense, amplamente divulgados em crônicas e artigos publicados na imprensa local desde 1975. Em 2005, sua crônica "O Amor do Palhaço" foi adaptada para o cinema em um curta-metragem (15") com direção de seu filho, Armando Praça Neto.

Obra

Assim me Contaram. (1ª Edição 1996 e 2ª Edição 2015)
Histórias de Assombração do Aracati. Publicação do autor. (1ª Edição 2006 e 2ª Edição 2016)
Ponte Presidente Juscelino Kubitschek. (2009)
A Maçonaria em Aracati (1920-1949). (2010)
Aracati era assim... (2024)
Relíquias de uma campanha (2024)
Aracaty: 1862, cólera-morbo (2025)
Fatos e Acontecimentos Marcantes da História do Aracati. (Inédito)
Notícias do Povo Aracatiense (Inédito)

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O Grupo Lua Cheia, com sede na cidade de Aracati-CE, é um coletivo de artistas formado em 1990 com o objetivo de fomentar, divulgar e pesquisar a arte e a cultura.