Aracati

Wednesday, 01 July 2026 17:13

O JOGO

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O JOGO Colagem Digital: Marciano Ponciano

Na Copa do Mundo de 1970, uma das raríssimas pessoas que possuía televisão em Aracati era o Sr. Raimundo Nanu. A novidade, como era de se esperar, atraía muita gente para assistir aos jogos da seleção brasileira na casa do Sr. Raimundo, que, mesmo a contragosto, aceitava essa leva de invasores para não demonstrar seu antipatriotismo para com a seleção canarinha.

Entre os muitos torcedores que se acotovelavam na sala estava a famosa turma do Rabo da Gata, comandada por nosso amigo Luís Keon, que se comportava como podia — e em silêncio — exigência expressa do proprietário da casa e da TV.

Mas no jogo Brasil contra Uruguai apareceu, sem convite e sem cerimônia, o conhecido Pampo, ajudante do ônibus de Joãozinho, aquele que fazia a linha Aracati–Fortaleza. Raimundo Nanu, ao ver aquela turba se aproximando da calçada, tendo à frente Pampo só de calção, camisa aberta e exibindo aquela barriga monumental, tentou espantar a assistência com um prognóstico desanimador:

— O que é que vocês vieram ver? O Brasil vai perder do Uruguai.

O presságio de Raimundo Nanu parecia mesmo profético, porque o Uruguai começou ganhando. Mas bastou o Brasil empatar para Pampo perder o juízo: levantou os braços para o alto e saiu gritando pela sala inteira:

— Aí é Bresil, Reimundo!... Aí é Bresil, Reimundo!...

Raimundo Nanu, com toda a autoridade de dono da casa e da televisão, não tolerou tamanha petulância. Explodiu num grito, dedo em riste apontando a porta da rua:

— Pra fora!... Pra fora!... Cambada de vagabundos!...

Foi uma debandada geral, com Pampo comandando a retirada como se fosse tropa em fuga.

Escorraçada, a cambada lembrou que no Velame, na casa de Bené, havia um rádio. Resolveram então, sem avisar — para ver se o efeito surpresa evitava nova expulsão — assistir ao jogo no rádio do Bené.

Chegando lá, invadiram a sala onde o rádio ABC repousava num pedestal de madeira coberto com uma flanela rosa. Bené, ao ver aquela procissão de desamparados, arregalou os olhos:

— O que é isso? Uma procissão dos desamparados ou uma comitiva de flagelados?

— Bené, liga o rádio no jogo do Brasil.

— Só ligo meu rádio pra ouvir novela e assistir à missa. Jogo aqui mesmo não. Além do mais, as pilhas tão fracas.

Pampo, sempre pronto a resolver o impossível, se adiantou:

— Pelas pilhas não tem problema. Tira as pilhas do rádio e bota pra cozinhar numa panela. Depois de ferver, pega carga.

— Vai, Bené — interveio Keon — resolve logo isso que o jogo tá rolando.

— Só mesmo tu, Luís Keon, pra me fazer atender a um pedido desses.

A contragosto, soltando um muxoxo, Bené tirou as pilhas do rádio e botou na panela com água para ferver. Enquanto esperavam, ouviam ao longe o pipocar dos fogos. Pampo, avexado, apressou-se:

— Vamos tirar as pilhas, senão o jogo acaba e ninguém escuta.

Quando chegaram à cozinha e olharam dentro da panela, viram que a água estava mais fria do que a do pote. O pouco gás do botijão não deu nem para amornar a água: antes de ferver, o gás acabou.

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Antero Pereira Filho

ANTERO PEREIRA FILHO, nasceu em Aracati-CE em 30 de novembro de 1946. Terceiro filho do casal Antero Pereira da Silva e Maria Bezerra da Silva, Antero cresceu na Terra dos Bons Ventos, onde foi alfabetizado pela professora Dona Preta, uma querida amiga da família. Estudou no Grupo Escolar Barão de Aracati até 1957 e, a partir de 1958, no Colégio Marista de Aracati, onde concluiu o Curso Ginasial.
Em 1974, Antero casou-se com Maria do Carmo Praça Pereira e juntos tiveram três filhos: Janaina Praça Pereira, Armando Pinto Praça Neto e Juliana Praça Pereira. Graduou-se em Ciências Econômicas pela URRN-RN em 1976 e desde então tem se destacado em sua carreira profissional.
Antero atuou como presidente do Instituto do Museu Jaguaribano em duas gestões (1976-1979/1982-1985) e foi secretário na gestão do prefeito Abelardo Gurgel Costa Lima Filho (1992-1996), responsável pela Secretaria de Indústria, Comércio, Turismo e Cultura.
Além de sua carreira profissional, Antero é conhecido por seus estudos sobre a história e a memória da cidade e do povo aracatiense, amplamente divulgados em crônicas e artigos publicados na imprensa local desde 1975. Em 2005, sua crônica "O Amor do Palhaço" foi adaptada para o cinema em um curta-metragem (15") com direção de seu filho, Armando Praça Neto.

Obra

Assim me Contaram. (1ª Edição 1996 e 2ª Edição 2015)
Histórias de Assombração do Aracati. Publicação do autor. (1ª Edição 2006 e 2ª Edição 2016)
Ponte Presidente Juscelino Kubitschek. (2009)
A Maçonaria em Aracati (1920-1949). (2010)
Aracati era assim... (2024)
Relíquias de uma campanha (2024)
Aracaty: 1862, cólera-morbo (2025)
Fatos e Acontecimentos Marcantes da História do Aracati. (Inédito)
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O Grupo Lua Cheia, com sede na cidade de Aracati-CE, é um coletivo de artistas formado em 1990 com o objetivo de fomentar, divulgar e pesquisar a arte e a cultura.