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Thursday, 21 May 2026 09:43

CASTORINA PINTO | CURURU ENFEZADO

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Escola Barão de Aracati (Detalhe). Escola Barão de Aracati (Detalhe). Colagem Digital: Marciano Ponciano

Havia no Grupo Escolar Barão de Aracati um serviço odontológico destinado aos seus alunos, patrocinado pelo SESI e exercido pelo odontólogo Dr. Francisco Porto, de saudosa memória, ao tempo em que Dona Belinha Souto dirigia a escola.

Naquele tempo, o tratamento dentário aplicado aos alunos era uma tortura. Todos os meninos fugiam com pavor do barulho da broca, acionada por um motor movido a pedaladas pelo próprio dentista. Outro instante de terror vinha com a insuportável injeção na gengiva, sem anestesia, quando era preciso extrair um dente. A paciência do vetusto dentista, entretanto, aliviava um pouco esse sofrimento indispensável para a saúde bucal da meninada.

Pois bem, Dr. Francisco Porto teve de se ausentar desse trabalho por motivo de saúde, e para substituí-lo veio um novo dentista de Fortaleza. O noviço odontologista, embora moço, era muito neurastênico, irritadiço, sem um fiapo de paciência com a criançada, que fugia da sua presença tão logo avistava aquela cara abusada e os olhos esbugalhados que ele carregava como ameaça permanente.

A meninada, que já se esquivava dessa obrigação tão necessária quanto desconfortável por causa dos incômodos que trazia, ficou deveras assombrada com a figura do dentista designado para substituir o paciente e generoso Dr. Chico Porto. As reclamações dos alunos ultrapassaram os limites da diretoria do Grupo Escolar e chegaram às casas das famílias, dando notícia do comportamento abusado do recém-novato Tiradentes.

Certo dia, a filha de uma agregada que trabalhava como doméstica na casa de Castorina voltou das aulas no Grupo Escolar aos prantos, reclamando do tratamento dentário imposto pelo indigesto dentista. Castorina, ainda vestida com a roupa de trabalho e empunhando um guarda-sol, resolveu então se ter com Dona Belinha Souto, diretora do Grupo Barão de Aracati.

— Prezada Belinha, que me desculpe a intromissão na sua escola. Mas de quem foi a ideia de trazer esse prático cururu enfezado para o Aracati?

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Antero Pereira Filho

ANTERO PEREIRA FILHO, nasceu em Aracati-CE em 30 de novembro de 1946. Terceiro filho do casal Antero Pereira da Silva e Maria Bezerra da Silva, Antero cresceu na Terra dos Bons Ventos, onde foi alfabetizado pela professora Dona Preta, uma querida amiga da família. Estudou no Grupo Escolar Barão de Aracati até 1957 e, a partir de 1958, no Colégio Marista de Aracati, onde concluiu o Curso Ginasial.
Em 1974, Antero casou-se com Maria do Carmo Praça Pereira e juntos tiveram três filhos: Janaina Praça Pereira, Armando Pinto Praça Neto e Juliana Praça Pereira. Graduou-se em Ciências Econômicas pela URRN-RN em 1976 e desde então tem se destacado em sua carreira profissional.
Antero atuou como presidente do Instituto do Museu Jaguaribano em duas gestões (1976-1979/1982-1985) e foi secretário na gestão do prefeito Abelardo Gurgel Costa Lima Filho (1992-1996), responsável pela Secretaria de Indústria, Comércio, Turismo e Cultura.
Além de sua carreira profissional, Antero é conhecido por seus estudos sobre a história e a memória da cidade e do povo aracatiense, amplamente divulgados em crônicas e artigos publicados na imprensa local desde 1975. Em 2005, sua crônica "O Amor do Palhaço" foi adaptada para o cinema em um curta-metragem (15") com direção de seu filho, Armando Praça Neto.

Obra

Assim me Contaram. (1ª Edição 1996 e 2ª Edição 2015)
Histórias de Assombração do Aracati. Publicação do autor. (1ª Edição 2006 e 2ª Edição 2016)
Ponte Presidente Juscelino Kubitschek. (2009)
A Maçonaria em Aracati (1920-1949). (2010)
Aracati era assim... (2024)
Relíquias de uma campanha (2024)
Aracaty: 1862, cólera-morbo (2025)
Fatos e Acontecimentos Marcantes da História do Aracati. (Inédito)
Notícias do Povo Aracatiense (Inédito)

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