Naquele tempo, o tratamento dentário aplicado aos alunos era uma tortura. Todos os meninos fugiam com pavor do barulho da broca, acionada por um motor movido a pedaladas pelo próprio dentista. Outro instante de terror vinha com a insuportável injeção na gengiva, sem anestesia, quando era preciso extrair um dente. A paciência do vetusto dentista, entretanto, aliviava um pouco esse sofrimento indispensável para a saúde bucal da meninada.
Pois bem, Dr. Francisco Porto teve de se ausentar desse trabalho por motivo de saúde, e para substituí-lo veio um novo dentista de Fortaleza. O noviço odontologista, embora moço, era muito neurastênico, irritadiço, sem um fiapo de paciência com a criançada, que fugia da sua presença tão logo avistava aquela cara abusada e os olhos esbugalhados que ele carregava como ameaça permanente.
A meninada, que já se esquivava dessa obrigação tão necessária quanto desconfortável por causa dos incômodos que trazia, ficou deveras assombrada com a figura do dentista designado para substituir o paciente e generoso Dr. Chico Porto. As reclamações dos alunos ultrapassaram os limites da diretoria do Grupo Escolar e chegaram às casas das famílias, dando notícia do comportamento abusado do recém-novato Tiradentes.
Certo dia, a filha de uma agregada que trabalhava como doméstica na casa de Castorina voltou das aulas no Grupo Escolar aos prantos, reclamando do tratamento dentário imposto pelo indigesto dentista. Castorina, ainda vestida com a roupa de trabalho e empunhando um guarda-sol, resolveu então se ter com Dona Belinha Souto, diretora do Grupo Barão de Aracati.
— Prezada Belinha, que me desculpe a intromissão na sua escola. Mas de quem foi a ideia de trazer esse prático cururu enfezado para o Aracati?