Naquele dia, enquanto trabalhava na casa de um vereador, ouviu uma conversa atravessada vinda da sala de jantar. A mulher do vereador, com voz de quem nunca precisou lavar uma peça de roupa na vida, reclamava da atuação do tal Chico da Goma junto aos aposentados e pensionistas.
— É um absurdo o que ele faz com as pessoas.
— Eu num acho não — respondeu o vereador. — Ele tá é ajudando quem não pode comprar.
A frase ficou martelando na cabeça de Nair. Ao chegar em casa, foi direto procurar um amigo cambista do jogo do bicho, para saber quem era esse Chico da Goma que comprava no nome dele as coisas para o povo. O amigo, conhecedor das rotas paralelas do comércio, deu o endereço.
Munida da informação, Nair seguiu para a casa de Chico, decidida a saber se ele podia comprar para ela o tão sonhado fogão 4 bocas. Chico, com a calma de quem já viu muita gente cair em tentação doméstica, disse que sim. Ele só precisava saber em que casas ela trabalhava, para ter uma garantia de que o pagamento viria. Nair repassou os nomes dos patrões, e Chico aprovou o crédito na hora.
Para receber o fogão, Nair precisava apenas assinar uma promissória: uma declaração de dívida passada em cartório, em benefício do próprio Chico. Dois dias depois, o Esmaltec perolado estaria brilhando na cozinha dela.
E assim foi. No mesmo dia em que assinou — sem ler — a declaração de dívida, no valor do dobro da fatura do fogão, o agente do desejo de Nair chegou em sua casa. Adeus trempe, adeus fogão a lenha na latada, quase no quintal. O desconforto foi embora, mas a intranquilidade entrou pela porta da frente.
Antes do fogão 4 bocas, Nair lavava e passava em 15 casas. Depois da chegada do Esmaltec, teve que procurar mais trabalho, chegando a 25 domicílios. Não tinha tempo para mais nada. O motivo desse aumento absurdo era simples: a despesa que o fogão trouxe. Antes, bastavam uns cavacos de lenha; agora, com o fogão moderno, tinha que comprar gás butano — e o preço subia todo mês.
Na euforia da novidade, mandou derrubar o fogão a lenha e vendeu a velha trempe para um ferro‑velho. Agora estava condenada ao gás butano. No começo, cozinhava todo dia, numa alegria só. Mas logo percebeu que não dava para abrir o fogão diariamente. Passou a cozinhar duas vezes por semana. Depois, nem isso. Com o preço do gás por causa do Irã — foi o que disseram — só aos domingos Nair podia acender o fogão 4 bocas.
Diante dessa dificuldade, teve que dividir o fogão com mais duas famílias, que passaram a usar as bocas em horários alternados, combinando café, almoço e jantar. A casa de Nair, antes refúgio de tranquilidade, virou cozinha comunitária. E pior: ninguém tinha coragem de limpar o fogão depois de usar. A tarefa sobrava para Nair, que chegava exausta de um dia inteiro lavando e passando.
Ela até pensou em se desfazer do “desejado” fogão 4 bocas. Mas sempre que tentava vender, esbarrava na mesma pergunta do comprador:
— Tá quitado? Cadê o carnê?
Era nessa hora que Nair lembrava do documento que assinou, aquele que Chico da Goma guardava com carinho, e respondia:
— Quem sabe é Chico da Goma!!!