Por ser o único hotel da cidade na década de 1940, era para lá que desembocavam quase todos os viajantes que passavam por Aracati. O estabelecimento funcionava no antigo e imponente sobrado, aquele mesmo que hoje abriga o Museu Jaguaribano.
Naturalmente, o prédio teve de passar por umas reformas aqui e ali, só para funcionar como um hotel. Seus quartos, ou cubículos, eram separados por tabiques conjugados, contendo em seu interior somente uma cama e outros pequenos móveis.
Era realmente uma acomodação improvisada para atender aqueles que visitavam a Terra dos Bons Ventos.
Como Aracati ainda concentrava o comércio de toda a Região Jaguaribana, vivia passando por aqui uma leva de representantes comerciais — os famosos viajantes — oferecendo seus produtos e apresentando novidades aos comerciantes locais.
Um certo dia, ali se hospedou um indivíduo franzino, de porte apequenado, que escolheu o último quarto do corredor por ser o mais escondido. A razão disso foi o pavor e o medo de receber um apelido de Castorina Pinto, de quem já ouvira falar a fama. Na verdade, ele estava tentando passar despercebido.
Castorina, que não estava na portaria do hotel quando da chegada desse hóspede, ficou sabendo por Presunto, um neguinho roliço, empregado do hotel, que havia um cara alojado no último quarto, aquele que ninguém escolhia para ficar. Isso intrigou Castorina, que passou a se interessar pelo dito ocupante:
— Presunto, cadê o homem que não aparece?
— Ninguém vê, D. Castorina. O homem é arisco, só sai quando a senhora não está aqui. Ele tem um costume esquisito de botar e tirar a cabeça para fora do quarto, como se estivesse espiando alguma coisa!
Castorina resolveu, então, botar uma tocaia no corredor para finalmente conhecer esse misterioso hóspede. Como o Presunto já tinha comentado, o morador do último quarto, antes de botar o pé no corredor para visitar seus clientes, ficava num vai e volta danado: esticava a cabeça para fora, recolhia num susto, tornava a espiar — sempre conferindo se o caminho estava livre.
Acontece que, todas as vezes que pretendia sair do quarto, dava com a presença de Castorina circulando no corredor. E, toda vez que a via, recuava na hora para dentro do quarto. Isso se repetiu várias vezes durante sua temporada no Hotel Aracati.
— Presunto, vá no quarto daquele “Rato de Gaveta”, diga que ele pode aparecer, que eu não sou assombração, não!