Uma solenidade que marcou profundamente esse memorável evento aconteceu no magnífico salão nobre do Maison Moderne, quando da conferência de um ilustre desembargador. Comentava-se à boca pequena — e às vezes à boca escancarada — que o ilustre magistrado se dedicava com mais afinco às letras jurídicas do que aos raros dentes que ainda lhe ornamentavam a arcada, e que, ao discursar, lançava ao auditório uma tão copiosa cerração de saliva que mais lembrava garoa de inverno do que oratória de salão. Fora ele convidado pelo Dr. Eduardo Alves Dias e pelo eminente promotor de Justiça Dr. Ubirajara Carneiro, que, movidos por zelo cívico, julgaram oportuno trazer à magna celebração tão peculiar orador.
A preleção do desembargador, sobre a importância econômica e política do Aracati, foi deveras empolgante e esclarecedora, digna e merecedora de encômios, e aplaudida pelo escol aracatiense.
Castorina Pinto e um seleto cortejo de moças e senhoras, representando o que de mais granfino e elegante a sociedade de Aracati podia ostentar, foram designadas para apresentar as boas-vindas ao brioso causídico.
Na ocasião dos cumprimentos ao insigne orador daquela data tão faustosa, as senhoritas encarregadas das gentilezas protocolares dispuseram-se em alinhadas fileiras diante do visitante, compondo um cortejo de delicadezas que só a fina sociedade aracatiense sabia ostentar.
Angélica Pinto, prima de Castorina, percebendo-lhe a ausência justamente no instante das mesuras oficiais, saiu em sua busca, ansiosa por reconduzi-la ao recinto para os efusivos cumprimentos de praxe.
— Castorina, vem, está na hora das felicitações ao desembargador.
— O Boca de Neblina? Vou não, Angélica. Eu não trouxe o guarda-chuva!
