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Thursday, 25 June 2026 10:24

O HOMEM DO PALETÓ

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Colagem Digital: Marciano Ponciano Colagem Digital: Marciano Ponciano

 

Uma certa noite, nossa conhecida Tereza do Arroz — famosa madame de um tradicional lupanar existente na Várzea da Matriz em tempos de antanho — recebeu no seu estabelecimento um cliente muito bem-vestido. O sujeito ostentava um elegante paletó, associando ao traje um chapéu de massa preto a "Lá Waldick Soriano".

Tereza deduziu logo pela aparência que se tratava de um cliente hervado[1]. Viu ali a promissora possibilidade de um consumo substancial, vindo a calhar para o caixa da casa, que naquela semana se mostrava raquítico e necessitado de uma conveniente gastança dos habitués frequentadores.

E o pressentimento de Tereza do Arroz tinha pleno fundamento. O homem do paletó fez uma extravagante despesa: bebeu cerveja e abasteceu as meninas com as bebidas de suas preferências, tudo ao som dos hits que embalavam as casas de recurso naquela época. Ao final da noitada, depois de já ter escurrupichado a conta com gimbre[2] em birutas[3] graúdas, requisitou que lhe fosse servida, então, a saideira.

Quando sorvia o último gole da cerveja, ele se dirigiu à madame:

— Prezada, gostaria que você pendurasse essa derradeira cerveja. Fique tranquila que em breve virei pagar.

Tereza do Arroz quis arripunar[4] a tal proposta, pois nunca foi do seu feitio aceitar fiado. Contudo, foi logo aconselhada por sua auxiliar na casa, que lhe disse ao pé do ouvido:

— Mulher, o homem já gastou tanto!! Uma cerveja a mais não faz falta não, né?

Cedendo ao conselho da amiga, Tereza aceitou a proposta. Assim, o homem do paletó foi liberado do ambiente após o ritual do abrimento dos cadeados. Essa tranca existia em vários portões por pura precaução, justamente para evitar que os xexeiros tivessem sucesso ganhando o bredo[5] sem pagar as meninas e a despesa.

Na manhã seguinte, quando Tereza e sua fiel auxiliar se dirigiam ao Mercado Público, foram surpreendidas logo na entrada com a notícia de que havia acontecido um crime naquela madrugada. Segundo as informações que corriam de boca em boca, o corpo do defunto estava no necrotério de João de Guilherme, sujeito conhecido como Patola, que ficava bem ao lado do Cemitério Municipal São Pedro.

— Amiga, vamos ver o defunto — disse Tereza para sua companheira.

— Precisa mesmo que eu vá? Eu vou, mas não olho para o morto! Pois tem uma superstição que diz: quem visita um defunto e olha para ele... Ele vem buscar!

Foram, então, as duas até o necrotério do Patola. Lá chegando, já depararam com uma pequena multidão que se aglomerava. Quando Tereza do Arroz finalmente se aproximou da pedra fria onde jazia o corpo, tomou um tremendo susto:

— Amiga, por caridade! É o homem do paletó. Ainda tá com a mesma roupa com que saiu lá de casa!

Passado o espanto inicial, a fisionomia de Tereza transformou-se instantaneamente numa cara de pura raiva, e ela esbravejou:

— Esse infeliz ainda ficou me devendo uma cerveja!

Na noite seguinte, quando já se preparava para dormir, Tereza do Arroz lembrou-se do homem do paletó. Movida pelo prejuízo, resolveu fazer uma oração pedindo que o "indivíduo" viesse lhe mostrar a milhar, o que seria uma excelente maneira de amenizar o desfalque no seu caixa.

Logo após terminar a prece, Tereza "pegou no sono". Somente veio a despertar quando uma claridade intensa, do nada, tomou conta de todo o seu quarto. Ao abrir os olhos, ainda sonolenta, avistou a imagem do homem do paletó se aproximando do seu leito. Sem nenhum epocancia[6], o espectro adiantou-se todo espandongado[7], proferindo com uma voz melosa e damasco[8]:

— Prezada, vim lhe pagar o que devo. Mas, antes, preciso me deitar com você.

Tereza do Arroz, num impulso sobrenatural, conseguiu se erguer na cama, disparando as palavras aterrorizadas:

— Votê, te arrenego! Aqui mesmo não, infeliz! Desapareça! Pra lá Aruá... Votê, fute!

Por mais que Tereza quisesse abrir o chambre[9], ela simplesmente não conseguia se desvencilhar daquela presença. Como uma tatuagem esculpida no espaço, o homem do paletó permanecia imóvel e presente no quarto.

Valendo-se, então, de sua contumaz gataria[10], Tereza tentou sugerir à visagem um esperto cambalaxo[11]:

— Você porventura não quer me trocar por Rubinéia, minha auxiliar? É uma morena sestrosa que está a dormir bem aqui ao lado, numa fianga[12]...

— Não, prezada. Minha dívida é com você.

Desmanivada[13] e sem abiscoitar[14] meios de vencer a adevã[15], restou a Tereza do Arroz deixar-se à matroca[16].

O mutange[17], depois de se lambuzar por completo durante a noite inteira, deixou a sua credora exausta e desfalecida aos pés da cama. Quando o vulto já sumia no ar como uma sombra esmaecida, ouviu-se, num último murmúrio, a voz sofrida de Tereza:

— E a milhar?

Do além, ecoou a resposta:

— Da próxima vez lhe direi...

 

 


[1] Endinheirado.

[2] Ares de importância.

[3] Cédulas.

[4] Recusar.

[5] Fugir.

[6] Acanhamento.

[7] Debochado.

[8] Destemido.

[9] Escapulir.

[10] Esperteza.

[11] Troca.

[12] Rede pequena.

[13] Desbancada.

[14] Conseguir.

[15] Contenda.

[16] À toa.

[17] Indivíduo sem cotação.

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Antero Pereira Filho

ANTERO PEREIRA FILHO, nasceu em Aracati-CE em 30 de novembro de 1946. Terceiro filho do casal Antero Pereira da Silva e Maria Bezerra da Silva, Antero cresceu na Terra dos Bons Ventos, onde foi alfabetizado pela professora Dona Preta, uma querida amiga da família. Estudou no Grupo Escolar Barão de Aracati até 1957 e, a partir de 1958, no Colégio Marista de Aracati, onde concluiu o Curso Ginasial.
Em 1974, Antero casou-se com Maria do Carmo Praça Pereira e juntos tiveram três filhos: Janaina Praça Pereira, Armando Pinto Praça Neto e Juliana Praça Pereira. Graduou-se em Ciências Econômicas pela URRN-RN em 1976 e desde então tem se destacado em sua carreira profissional.
Antero atuou como presidente do Instituto do Museu Jaguaribano em duas gestões (1976-1979/1982-1985) e foi secretário na gestão do prefeito Abelardo Gurgel Costa Lima Filho (1992-1996), responsável pela Secretaria de Indústria, Comércio, Turismo e Cultura.
Além de sua carreira profissional, Antero é conhecido por seus estudos sobre a história e a memória da cidade e do povo aracatiense, amplamente divulgados em crônicas e artigos publicados na imprensa local desde 1975. Em 2005, sua crônica "O Amor do Palhaço" foi adaptada para o cinema em um curta-metragem (15") com direção de seu filho, Armando Praça Neto.

Obra

Assim me Contaram. (1ª Edição 1996 e 2ª Edição 2015)
Histórias de Assombração do Aracati. Publicação do autor. (1ª Edição 2006 e 2ª Edição 2016)
Ponte Presidente Juscelino Kubitschek. (2009)
A Maçonaria em Aracati (1920-1949). (2010)
Aracati era assim... (2024)
Relíquias de uma campanha (2024)
Aracaty: 1862, cólera-morbo (2025)
Fatos e Acontecimentos Marcantes da História do Aracati. (Inédito)
Notícias do Povo Aracatiense (Inédito)

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