— Não me envergonho em mostrar minha boca ao dentista — dizia Rodolfino —, mas sim à atendente. Na minha mente, ela, ao ver o estado da minha desgastada e corroída dentadura, dirá: “Um homem tão bem parecido! Com a boca nessas condições! Quase sem dente!!!”
Tomado por esses medonhos pensamentos, lá foi Rodolfino ao dentista. Para se acalmar um pouco, tomou um suco com Frontal de 0,5 mg e, flutuando, chegou ao consultório.
Chegou na hora marcada, em ponto. Mas já havia gente na sua frente. A demora quase o fez desistir. “Melhor voltar outro dia”, pensou — quando a porta do consultório se abriu e a atendente anunciou:
— Sr. Rodolfino?
Levantou-se sem responder e entrou na sala sem pensar em nada, como um condenado que se dirige ao cadafalso — que comparação sem sentido! Enfim, lá estava Rodolfino, depois de quase uma dentição inteira perdida, sentado novamente numa cadeira de dentista.
— Tá nervoso? Com medo? Pode relaxar. Não vai doer nada — tentou acalmá-lo o odontólogo.
Rodolfino lembrou daquela outra história: “Não vai doer nada, viu? Se doer eu...” Hum... hum... hum... aquiesceu.
— Abra a boca, por favor. É... parece que não tem muita coisa a fazer, né?
— Também são poucos dentes, né — pensou Rodolfino consigo mesmo.
De olhos bem fechados, para não cruzar seu olhar com o suposto olhar de reprovação da atendente, permanecia estirado, retesado na cadeira. A saliva invadia sua boca, quase fechando a garganta, dificultando a respiração. Meio sufocado, quis se levantar para cuspir na escarradeira, mas o dentista o empurrou de volta e ordenou:
— O sugador, Marly... Por favor, abra um pouco mais a boca e afaste a língua para um lado.
Antes de ser enfiado em sua boca aquele chupador de cuspe, Rodolfino abriu os olhos para ver o que era aquilo. E o que viu foi o olhar de total reprovação de Marly:
— Além de desdentado, ainda se cospe todo.
Engoliu em seco e fechou os olhos novamente.
Alavancado pelo dentista, que o tirou da horizontal e o botou na vertical, Rodolfino saiu do torpor.
— Sr. Rodolfino, fiz a primeira avaliação — e Rodolfino ficou em suspensão, imaginando quanto ainda deviam valer aqueles desgastados restos de marfim. — Na próxima semana o senhor vem para começar o tratamento. Certo?
— Certo — confirmou Rodolfino. — E o pagamento?
— Acerte aí com a Dª Marly.
A atendente, com ar de superioridade e desprezo, indagou:
— Como o senhor quer fazer o pagamento? Dinheiro, cheque, cartão de crédito, duplicata, promissória, comodities, ações da bolsa, dólar, euro ou pix???
— Convênio — respondeu baixinho Rodolfino.
— Convênio? — replicou Marly, desapontada.
— Sim... — sussurrou Rodolfino.
— Com convênio não tem sugador... nem escarradeira. É com pinico. E traga de casa! Essa gente! — disse ela, saindo e tapando o nariz com uma cara de muxoxo.