A Revolução de 1930, comandada pelo gaúcho Getúlio Dorneles Vargas, veio com o propósito de varrer da vida pública todos os antigos políticos que advinham da chamada República Velha. Era uma nova era de esperança e entusiasmo que, com o passar do tempo, arrefeceu e ficou exatamente como antes, no “Quartel de Abrantes”.
Com o afastamento do tenente Edson da Mota Correa, convocado para enfrentar os revoltosos paulistas de 1932, a Prefeitura passou para as mãos do jovem Perilo Teixeira. Dotado de energia e disposição, ele buscou demonstrar serviço e romper com as práticas antigas e os costumes de uma cidade ainda marcada pelo elitismo e pelo conservadorismo.
Apesar dos esforços de Perilo Teixeira para renovar a cidade, não existia um código de posturas ou, se existia, era ignorado. A população mantinha seus animais soltos pelas ruas descalças e poeirentas, refletindo a decadência local.
Nossa estimada Castorina Pinto, filha da elite e figura notória da sociedade, criava solto pelas ruas um porco de estimação, a quem chamava de “Chico”, e que era conhecido por todos como o porco de Castorina.
Ainda desconhecendo o rito e o cotidiano da cidade e seus personagens, Perilo Teixeira tomou medidas e baixou normas para sanear a cidade desses animais vadios que circulavam pelas ruas.
Infelizmente, o Chico de Castorina, numa das blitzes da carrocinha que prendia animais, foi recolhido e conduzido para o cercado-prisão. Em seguida, continuando o rito das normas estabelecidas pela Prefeitura, foi levado para o abate e encaminhado ao Dispensário dos Pobres, dirigido pelas Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, para amenizar a fome da pobreza.
Ao sentir a falta de Chico, Castorina procurou saber de seu paradeiro. Ficou, então, sabendo que seu Chico tinha sido recolhido ao depósito de animais da Prefeitura de Aracati.
Vestida com seu melhor vestido de rendas e labirintos e um chapéu de estilo, Castorina se dirigiu, então, à sede da Prefeitura para se haver com o jovem e iniciante prefeito Perilo Teixeira:
— Perilo, eu vim buscar meu Chico, que foi preso por seus asseclas.
— Dona Castorina, eu só vim a saber que o Chico era seu depois de terem sido cumpridas as normas que se dão a todo animal apreendido... Infelizmente, seu Chico se converteu em alimento dos pobres do Dispensário... Em consideração à senhora, vou pagar do meu bolso a multa que a Prefeitura vai lhe cobrar!
Castorina levanta-se da cadeira com ar de indignação, arrogância e atrevimento e, encarando o prefeito Perilo Teixeira, que tinha um olho mais baixo do que o outro, arremata:
— Dispenso. Não preciso de sua esmola, seu OLHO DE CONTRADANÇA!!!
