Castorina Pinto dizia sempre que tinha duas grandes paixões — já que nunca se casara — uma pelo Aracati e outra pela cidade de Recife, para onde sempre viajava para vender seus labirintos e rendas feitas em Aracati. Repetia, com a convicção de quem fala de coisa séria, que eram cidades de muita água, pois tinham mar e rio. Isso era seu fraco, e ela não escondia.
Já morando em Fortaleza, na rua Nogueira Acioly nº 248, Castorina Pinto mantinha o antigo costume de tirar uma soneca depois do almoço. Era seu ritual diário, quase um mandamento doméstico. Mas sua siesta reparadora era interrompida, sempre à mesma hora da tarde, por um inconveniente vendedor ambulante que, aos gritos, anunciava seus produtos de casa em casa.
Cadu fixou a retina em antigas fotografias guardadas numa caixa esquecida num armário do apartamento da mãe. Nelas, dentre uma equipe perfilada, seria ele um jovem de rebeldes cabelos encaracolados, rosto afilado, pescoço cumprido que, junto aos seus colegas de equipe, comemorava um título qualquer naqueles antigos campos de várzea, de terra batida.
A Igreja Matriz de Aracati, localizada na praça de mesmo nome, foi construída no local onde já existia, por volta de 1714, uma pequena capela. Em 1761, iniciou-se a construção do atual templo, que foi concluída somente no século XIX.
O lisboense Antônio é um consultor dos bons, referendado pelas mais diversas redes hoteleiras. Coube-me a tarefa de ciceroneá-lo em sua passagem por minha cidade. De imediato, disse não querer reencontrar Canoa Quebrada para não perder o encanto de sua última estadia, quarenta anos atrás.
“Literatura” é um nome dotado de muitos sentidos, carregado de muitas valorações. Na forma como gostaria de entendê-la aqui, consiste na arte da palavra, oral ou escrita, desenvolvida como meio criativo de interação entre a realidade (externa) e a fantasia (interna), a fim de permitir uma confabulação em que se exprimam sentimentos e visões de mundo plasmados pelo artista. Essa definição talvez pareça ter seus limites, mas é inevitável que assim o seja: agora, julgar se tais limites são negativos ou positivos cabe a cada um, segundo o próprio entendimento e perspectiva.
A prática de angariar votos na véspera da eleição continua, atualmente, igual ao passado, somente com método diferente. Aniceto da Costa escreveu uma crônica atualíssima narrando um acontecimento havido no Aracati ao tempo da eleição municipal de 1950, envolvendo personagens e lideranças daquela época.
Rosa, naquele tempo em que a seca de 1932 varreu o sertão como um vento de desgraça, ainda não fazia a vida remendada que depois teve de aceitar quando chegou a Aracati, empurrada pela fome e pela poeira. Vinha moça, mas já com o olhar cansado de quem aprendera cedo que a terra rachada não dá futuro a ninguém. Tentou de tudo: ajudante em venda, lavadeira de beira de rio seco, carregadora de trouxas alheias. Mas a seca, essa danada, não deixava ninguém firmar pé em canto nenhum. Faltava água, faltava serviço, faltava até esperança. E Rosa, sem estudo e sem padrinho, vivia de arranjos: um dia aqui, dois acolá, sempre com a sensação de que o mundo lhe escapava por entre os dedos.
Um engenheiro químico brilhante, aracatiense, professor de climatologia da Universidade Federal do Ceará e precursor, juntamente com o Dr. João Ramos, das chuvas artificiais no Ceará, ganhou fama bombardeando as nuvens para fazer chover, no que se chamava nucleação artificial. Era figura tão comentada que o povo, entre respeito e gracejo, já o chamava de Faísca, embora ninguém soubesse ao certo de onde viera o apelido.
O notável folclorista cearense Leonardo Mota nutria uma predileção especial pelo Aracati, movido pela veia anedótica e pelo humor sempre pronto do povo aracatiense. Era terra onde o espírito brincalhão vicejava como mato em beira de estrada.
Uma certa manhã, Castorina Pinto foi abordada por um casal de mais idade, muito alinhadinho, querendo saber dela se, no tempo antigo, tivera conhecimento de um médico meio esquisito que morava na Rua Grande. Castorina estranhou aquele interrogatório sem pausa — parecia até inquérito — e logo percebeu que o casal não era da terra. Ajeitou a bolsa no braço, desconfiada, e perguntou se o tal médico era parente deles. Responderam que sim e que tinham interesse em saber algo do paradeiro ou da convivência dele em Aracati.
O JOVEM LIBERATO| Encravada no litoral leste do Ceará, Aracati vivia o seu apogeu econômico e político em meados do século XIX, durante o ciclo das “charqueadas”. Nesse período, a Vila passou a ocupar posição de vanguarda em toda a Província ao fundar inúmeras oficinas de exploração da carne-seca exportada para diversos países.
O Grupo Lua Cheia, com sede na cidade de Aracati-CE, é um coletivo de artistas formado em 1990 com o objetivo de fomentar, divulgar e pesquisar a arte e a cultura.